A ANATOMIA DA ALMA

19.maio.2021





O asfalto vive me dando rasteiras. Desde sempre. Para mim, cair é hábito. Antes era porque eu era jovem demais, agora é porque estou ficando velha. Já fraturei cotovelo, antebraço, dedinho do pé, rompi ligamentos e tendões. Ficaram algumas cicatrizes e várias marcas, que revelam mais de mim do que as áreas intactas do meu corpo.

A última queda aconteceu recentemente, quando eu praticava corrida na rua. Como todas as nossas quedas, foi por pura desatenção, um pequeno movimento errado. Fui nocauteada pelo asfalto, esse frio e insensível adversário, que de tempos em tempos me chama para a briga. Por sorte - ou talvez pelo hábito - tenho bons reflexos, que é o que me salva. Desta vez foi a minha mão que instintivamente protegeu meu rosto e tomou as dores e o impacto. Resultado: uma ralada, tipo ralador de cozinha mesmo, na palma da mão esquerda, entre outros cortes superficiais e hematomas nos joelhos.

Passei a observar atentamente, dia a dia, a incrível reação do meu organismo em direção à cicatrização, e isso me fez associar ao processo de regeneração de outras feridas, aquelas que não enxergamos: as nossas feridas emocionais.

Feridas, por definição, são desconexões. Células que deveriam permanecer ligadas se separam, nervos se fragmentam. É quando elementos vitais de uma relação se rompem e perdem a continuidade. E é justamente daí, desses vínculos rompidos, que nascem as nossas dores mais profundas, as dores da alma.

Primeiro vem o impacto. A dor é proporcional à força depositada: quanto mais importa, maior é a dor. Algumas dores chegam a arder, a queimar, como as paixões incendiárias que nos destroçam. E na hora da dor, não há nada a fazer senão sentir a dor; na hora que dói, só nos resta aceitar. Porque a dor, enquanto vive, é soberana.

Levantar-se da lona é o primeiro passo, mesmo que o sentimento seja de fraqueza ou de derrota. É imprescindível limpar a sujeira que a ferida carrega, pois resquícios mal resolvidos podem comprometer camadas saudáveis do corpo da alma.

Sou daquelas que que gosta de olhar de perto o tamanho do estrago. Encarar a dor não me assusta, me assusta não saber a sua dimensão.

No caso da minha mão, era pura carne viva, vermelha, pulsante, pedindo socorro, como faz o nosso coração quando grita de dor. Meus hematomas do joelho nem chegaram a incomodar, é que dores maiores absorvem dores menores.

A boa notícia é que sempre depois de uma desconexão inicia-se imediatamente a etapa da reconstituição e entra a primeira fase da cura: o processo inflamatório. O machucado interno incha, lateja e a dor reina absoluta. Uns se defendem com autopiedade, outros com raiva, outros tentam entender o inintendível. Família e amigos são analgésicos, ajudam a assoprar. O importante é não aceitar nenhum remédio que seja mais milagroso do que o tempo. E enquanto o tempo age, nossa tarefa é proteger a ferida.

Cada um tem o seu mecanismo de proteção, desde os mais instintivos até os mais elaborados. Mas duas medidas protetivas são universais: não superproteger e não cutucar a ferida.

Desta vez errei na proteção intensiva. Exagerei na gaze e sufoquei o machucado, como que querendo escondê-lo de mim mesma. Sem poder respirar, ele se ressentiu e se manifestou através de secreções. Sem ter o espaço que precisava para se expressar, a ferida deu um passo para trás e fez a dor aguda voltar.

Assim são os cursos das cicatrizações internas, com retrocessos e surpresas. Pois elas não seguem uma linha reta, cada uma segue o seu próprio caminho; pois cada alma ferida é uma existência em si.

O processo de maturação acontece quando uma base é criada para que as estruturas rompidas promovam novos vínculos. Somos avisados, então, que é hora de ampliar os movimentos que foram temporariamente suspensos. Chega uma hora em que é imperativo enxugar as lágrimas e se desapegar da dor.

Mas as dores físicas e emocionais não são assim tão iguais. A dor física não precisa de um sentido para ser vencida, a emocional sim; na dor física dói só a parte afetada, na emocional dói tudo, até fio de cabelo; as dores físicas não nos fazem crescer, as emocionais, quando conseguimos vencer, nos fortalecem.

O machucado fez algumas linhas se apagarem da palma da minha mão, e novas surgiram. Se é verdade que tais linhas representam o nosso destino, sou forçada a concluir que o ferimento mudou o meu.

De uma forma ou de outra, nunca passamos ilesos pelas nossas dores.


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