A DITADURA DAS SOBRANCELHAS

03.maio.2022


A ditadura é compulsória, a gente não escolhe onde nasce e é obrigada a aceitar as regras do sistema. Algumas a gente aceita, outras a gente contesta, mas uma hora acaba cedendo.

Foi assim que me rendi à tirania da sobrancelha perfeita.

Porque hoje, já é lei, eyebrow is the new eye.

Minhas sobrancelhas não são exatamente alinhadas, não têm nenhum desenho; não são grossas nem finas, nem feias nem bonitas. E é exatamente esse o problema. Não têm a expressão exigida, não gritam no rosto.

O primeiro passo foi a procura de um profissional. O Google indicou vários lugares como (sic) clínicas, spas, estúdios, laboratórios, institutos e centros de beleza, todos especializados em sobrancelhas.

Com alguns cliques me deparei com uma variedade de técnicas, o que comprovou a importância da causa: micropigmentação, microagulhamento, Dermolev, lifting, brow lamination, Refectocil, entre outras denominações que até então eu nunca tinha ouvido falar. “Como sou relapsa e ignorante”, pensei. E isso me desafiou a seguir adiante.

Escolhi o estabelecimento pela foto da sobrancelha mais interessante, que pairava sobre belíssimos olhos verdes, no caso, meros coadjuvantes.

O lugar era lindo, a recepção toda pintada de amarelo-canário, com cheirinho de baunilha. Várias telas de led espalhadas exibiam imagens mutantes de rostos belíssimos de mulheres.

Fui recepcionada por uma jovem - linda e com sobrancelhas incríveis - que me encaminhou a uma sala, que mais parecia um consultório médico cor-de-rosa. Depois de me servir um chá, ela pediu para aguardar a (sic) concierge, que daria início ao meu atendimento.

A tal concierge - igualmente linda e com sobrancelhas incríveis - chegou depois de alguns minutos vestindo um avental de renda branco. Ela faz um questionário e anota observações na minha ficha. Em seguida sou encaminhada para (sic) a sala azul, toda pintada de azul celeste, onde me aguardava a minha (sic) advisor, que faria uma análise preliminar do estado das minhas sobrancelhas.

A advisor - também linda e com sobrancelhas incríveis - me faz deitar numa maca e se põe a analisar os folículos dos meus sobrolhos com uma lupa gigante.

Depois de me (sic) examinar, a advisor pega o relatório preenchido pela concierge, como se estivesse lendo um laudo de uma tomografia. Dá um suspiro e relê. Eu quase pergunto “é grave doutora?”, mas preferi aguardar a próxima etapa.

Ela pede para eu permanecer deitada na maca e diz que a minha (sic) designer já viria com o meu diagnóstico final.

Deitada, fecho os olhos e me entrego aos meus delírios, já que a situação em si já me parecia surreal. Imagino taturanas subindo pelos meus pés, percorrendo perna, barriga, pescoço, caminhando em direção ao meu supercílio. Minha pele coça, eu transpiro. Quero fugir. Mas chega a designer - linda e com sobrancelhas incríveis - que me faz espantar as taturanas que passeavam pelo meu corpo. Enquanto me analisa com a lupa, diz que tem boas notícias. Um tratamento (sic) wild deixaria o meu olhar (sic) poderoso e dariam ao meu rosto uma (sic) personalidade única. Ela me explica o procedimento, que seria só um pouco dolorido, e que depois desse primeiro passo era só fazer a manutenção dos fios de dois em dois meses. Fico com raiva de mim por eu ter me colocado naquela situação. Ela pede para eu me sentar na cadeira e aguardar pelo termo de consentimento que seria trazido pela responsável financeira da clínica. Sai da sala dizendo “até já querida, te vejo na (sic) sala de procedimentos, a sala verde-esmeralda”.

A responsável - não, ela não era linda, mas tinha sobrancelhas incríveis - chega com uma pasta contendo meus (sic) documentos e tira alguns papéis. Além do termo de consentimento, um orçamento que levou minhas sobrancelhas inexpressivas ao meio da testa. Profissional, ela mantém naturalidade quando me passa os preços nada módicos, o que me deixa constrangida para regatear.

Pergunto se o procedimento demora, ela diz “não, é rápido, no máximo duas horinhas”. Fico com mais raiva e mim e transpiro até pelo nariz. A funcionária, imaginando que fosse medo, tenta me acalmar dizendo que se trata de um tratamento tranquilo.

Sou encaminhada para a sala verde-esmeralda, lá me aguardavam a designer-cirurgiã e sua assistente-instrumentista. Quando ela começa a (sic) assepsia, me incomodo com a respiração muito próxima de uma pessoa nada próxima. Para distrair meu incômodo fixei meu olhar no que vi pela frente: suas sobrancelhas. Reconheci no seu rosto uma expressão comum. Era a mesma da concierge, da recepcionista, das mulheres das telas led que, por sua vez, eram iguais a todas as outras mulheres que têm sobrancelhas lindas, fartas e uniformemente despenteadas... a mesma expressão que eu teria quando saísse daquela sala.

Simulo uma dor de barriga, tiro a touca do cabelo e saio da sala apressada sem olhar para trás. Passo pelas salas coloridas e finalmente consigo fugir. Corro pela rua, wildly (como a designer queria que fossem as minhas sobrancelhas) fugindo do cheiro de baunilha, das vozes meigas, das taturanas, das salas coloridas, comemorando a liberdade de manter, por enquanto, minhas sobrancelhas virgens.

E grito: abaixo a ditadura!


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