A FUGA


Flora Borsi, Subjective Freedom


“Me dê um abrigo, por favor!”

Ela usava óculos escuros, um chapéu enorme e uma echarpe que cobria quase todo o seu rosto. Olhava exasperada para os dois lados, tal qual uma fugitiva. “Muito prazer, sou a Felicidade”.

Fui imediatamente seduzida por sua identidade e, sem perguntas, a fiz entrar.

Ela se desfez do disfarce, me explicou que tudo aquilo era para passar anônima pelas oito bilhões de pessoas que a perseguiam.

Felicidade estava abatida, pálida, sem brilho e, embora ostentasse um largo e protocolar sorriso na boca, tinha um olhar ansioso. Confesso que fiquei um pouco desapontada quando a vi pessoalmente e de cara lavada. Não que ela não fosse linda, mas sempre imaginei Felicidade vigorosa, bronzeada, poderosa, charmosa, soberana.

Ficamos alguns minutos em silêncio. Enquanto ela se acomodava no sofá, eu organizava minhas emoções provocados pela inesperada – e sempre esperada - visita daquela estranha conhecida. Trocamos olhares e eu, confusa, não sabia se retribuía ao sorriso de Felicidade pois, apesar de estar de cara a cara com ela, estranhamente não tinha vontade de sorrir.

Para quebrar o gelo, ofereci um chocolate quente com biscoitos. “Isso sim é a verdadeira felicidade!”, exclamou Felicidade.

Felicidade ficou até mais corada. Mas assim que começou a raciocinar trouxe de volta o sorriso obrigatório que ela estava fadada a carregar. Aproveitei o gancho e arrisquei: “Esquece esse sorriso, relaxa. Estamos aqui só você e eu. Pode tirar os sapatos e colocar os pés na mesa.”

“Estou exausta”, começou ela. E se desandou a falar.

Me contou que todos a desejavam sem sequer saber quem ela era de verdade, nem mesmo se ela realmente existia. A desejavam, mesmo sabendo que nunca a teriam por completo, e, talvez, justamente por essa razão.

“Me entregam listas intermináveis de pedidos. Me cobram dinheiro, família, saúde, amigos, liberdade, viagens, vingança, paixões, comidas, troféus, beleza, prazeres. Se dou dinheiro, querem mais. Se dou chocolates, querem magreza. Se dou liberdade, me pedem socorro. Se dou beleza, a querem para sempre.

Percebe meu papel ingrato? Nunca vou caber nas pessoas se elas não entenderem que não sou uma causa, e sim uma consequência.

Rezo diariamente para as pessoas encontrarem a Paz, quem sabe assim elas me deixam um pouco em paz. Porque a Paz é maior do que eu e, no entanto, ela está quieta e tranquila no seu canto meditando, enquanto as pessoas brigam e se quebram por minha causa.”

Expliquei que é humano buscar a felicidade e que não damos nenhum passo na vida sem tê-la no horizonte.

“O que escapa saber é que não existe ser feliz, existe sim estar feliz. Falta-lhes dominar a sabedoria de conseguir ser feliz com esse estar feliz”, sentenciou ela. E prosseguiu: "Acontece que algo dentro de vocês deseja prolongar os prazeres e perpetuar o sentimento de felicidade. O everlasting do contentamento pleno. O êxtase sem fim."

Segundo Felicidade, esse contentamento, onipresente, em alto volume nos nossos ouvidos nos ensurdeceria, assim como a luz sem trégua feriria nossas retinas. “Quem suportaria apenas sorrir, apenas ganhar? Como nasceriam seus novos desejos, se tudo acontecesse de acordo com os seus desejos?”

Ouvi atentamente ao seu desabafo e cheguei a sentir pena da Felicidade. Não deve ser fácil ser ela. Por outro lado, conhecendo-a mais de perto, percebi como ela era leve, simples, despretensiosa, bem humorada. Naturalmente bela. Fiquei absolutamente encantada.

Ficamos juntas sem pausas até o anoitecer, e apesar das boas risadas e das conversas gostosas, um dia inteiro, só eu e a Felicidade, me exauriu. Não conseguiria dormir com aquele contentamento todo plugado em mim. Minha felicidade precisava de repouso, para que a vida acontecesse no dia seguinte.

Inventei uma desculpa qualquer e quando nos despedimos a fiz prometer que voltaria de tempos em tempos. Antes de partir, Felicidade me agradeceu pelos biscoitos, pelo pé na mesa, enfim, pela trégua de sua própria felicidade. Vestiu o disfarce e se foi, para, quem sabe, procurar outro abrigo.


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