A HORA DA GUERRA

29.junho.2021


Ninguém gosta de viver em guerra. Está certo, quase ninguém. Como se não bastassem as guerras entre as nações, as brigas nas ruas, nas vizinhanças, nas famílias, estamos fadados a enfrentar diariamente os nossos combates internos.

As razões variam de pessoa para pessoa, mas ninguém escapa de suas lutas internas. Sejam elas entre cérebro e coração, bem e mal, consciente e subconsciente, paixão e razão, certo e errado.

Uma caixa de Bis pode deflagrar em mim uma guerra mundial interna. Sou incapaz de ficar indiferente diante de uma caixa de Bis. Entram em ação exércitos das mais variadas brigadas, todos armados e com argumentos imbatíveis. E o pior: estão todos certos.

O mais estrategista de todos é sempre o primeiro a chegar. Charmoso, entra no campo de batalha e sussurra: “É gostoso, é chocolate, é chocolate branco. Coma, coma só um, depois coma a camada de cima, coma também a camada de baixo. Termine a caixa inteira, a vida é uma só, amanhã você compensa”.

Logo depois entram em ação os disciplinados soldados fitness, atirando para todo os lados a informação de que para queimar as calorias de quatro unidades de Bis, eu teria que caminhar 45 minutos a 8Km/h. Considerando que a caixa tem vinte unidades, eu teria que caminhar 225 minutos, ou seja 3 horas e 45 minutos.

O subconsciente interrompe esse embate raso entre o estrategista e a brigada fitness, sugerindo algo mais profundo. Me transmite mensagens cifradas, que me remetem a lembranças de frustrações, sonhos e desejos não realizados. Isso provoca uma revolução confusa nas minhas papilas gustativas.

O exército da vaidade usa a tática visual, aplicando um verdadeiro golpe baixo. Me bombardeia com imagens de roupas apertadas, zíperes que não fecham, espinhas no rosto, celulites e pelancas. Me intimido, a vontade recua.

Mas depois, quando a tropa do "dane-se" invade, dispersando essas imagens cruéis, a tensão diminui. E me sugere que a irresponsabilidade às vezes cai bem, e que não existe nada mais precioso do que o prazer que nos permitimos ter. Salivando, eu abro o papelzinho do primeiro Bis.

Com o chocolate quase na boca, ouço: “Pare!” É o general, durão, que invade o front sempre que surge um perigo iminente. Ele vem para dar ordens, sem margens para discussões, mesmo porque não temos tempo para isso: o Bis está quase dentro da boca. O general, impassível, repreende e impõe duras penas caso a ordem de recuo imediato for descumprida.

Instala-se o caos e a guerra se intensifica. Cada exército usa suas armas, enquanto o objeto de desejo - a caixa de Bis - aguarda o resultado do embate.

Seja qual for o vencedor, todos perdem. Porque não existe o totalmente certo e o totalmente errado, além do que, todas as causas são legítimas aos olhos de quem as defende.

A grande meta é transformar as guerras internas em conflitos mais democráticos, estes sim nos fazem pensar. Acontece que diante de uma caixa de Bis, minha maturidade regride, nada disso faz sentido e eu perco a moral, a educação e a compostura.

Ouvi uma história sobre dois homens que conversavam. Um deles dizia que dentro dele habitavam dois cachorros, um era terrivelmente cruel e o outro incrivelmente bom. E os cachorros estavam sempre brigando. Perguntado qual dos dois vencia a briga, o homem respondeu: “aquele que eu alimento mais frequentemente”.

Com essa história na cabeça, resolvi fazer uma experiência, só que diferente. Escolhi um dia em que o meu cachorro da procrastinação lutava contra o meu cachorro da urgência. Sufocada pelo barulho dos dois, me levantei, discretamente saí do quarto a passos silenciosos para não chamar atenção e deixei os dois brigando. Enquanto isso, tomei um chá, li o jornal com calma, e com a mesma calma, encarei o trabalho que, diariamente, eu empurrava para o dia seguinte. Terminei, enfim, o trabalho e percebi que eram justamente os latidos da urgência é que me faziam procrastinar a tarefa.

Quando voltei ao quarto, estavam os dois cachorros brincando e eu já não sabia distinguir qual era o terrivelmente cruel e qual era o incrivelmente bom.

Até eu conseguir interiorizar isso, reservo minhas brigas para questões mais fáceis de resolver, desde que não seja por uma caixa de Bis.


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