A IDIOTA

15.fevereiro.2022



Às vezes quero ser idiota.

Não precisar entender, calcular nem resolver nada. Ser rasa, superficial, simples e simplória. E quero ser vista assim pelos outros, para que não esperem muito de mim.

Quero não ter a obrigação de ser sensata ou coerente. Não precisar ter respostas para todas as perguntas. Errar, sem vergonha, sem medo.

Não precisar ter bom senso, bom gosto, bons modos.

Ser estúpida. Estupidamente leve e bem resolvida, como só os que não pensam muito conseguem ser.

Não invejar, não desejar o que é dos outros. Afinal o que quer uma pateta senão apenas ser levada pela vida, sem grandes ambições? Todo o resto que vier é lucro. E são nestes lucros que o melhor da vida acontece.

Um dia eu consigo ser aquela esposa sonsa, que faz o marido querer o que ela quer, e ainda faz com que ele acredite que está no comando. Que sonsice genial essa, que a minha inteligência burra nunca me permitiu alcançar!

Quero ser aquela mãe boba e molenga que saiba falar “nãos” através dos “sins”. Conseguir brincar de falar coisas sérias. Fazer os filhos pensarem que venceram o jogo sem a minha ajuda, até que um dia eles possam realmente vencer sem a minha ajuda.

Quero acreditar em tudo o que me falam. Quero falar tudo que acredito.

Tenho vontade de amar como uma palerma. Abraçar até esmagar, falar e repetir tudo que sinto, sem rodeios, sem orgulho. Amar com a segurança de uma tosca convicta.

Quero que a minha memória seja igualmente tosca. Que ela se esqueça de dores, mágoas e sofrimentos. Que lembre mais de alegrias rasas do que dores profundas. Que apague sentimentos lúcidos que fazem mal.

Quero gargalhar e me divertir bobamente, falar um monte de besteira sem medo se ser ridícula. E, sobretudo, quero rir da minha própria idiotice.

Persigo a babaquice de quem é generoso sem querer nada em troca; a fraqueza de quem escuta calado; a covardia de quem foge das brigas; a lerdeza de quem não percebe quando é provocado.

Careço da passividade babaca dos que conseguem ficar numa fila sem reclamar, dos que não contestam tanto, dos que não culpam os outros, dos que não se culpam tanto. Preciso dessa passividade de quem aceita … e de quem se aceita.

Quero para mim, todos os dias, um pouco da ingenuidade boba das crianças, que brincam de amarelinha, se divertem com um arroto, acreditam em tudo que lhe dizem e atingem a felicidade plena com um algodão doce. Que choram quando têm vontade, dormem e babam no travesseiro sem preocupações, sentem raiva só por um minuto e depois esquecem. E que sabem que ainda não sabem nada da vida. Pois só se aprende quando se sabe que não sabe.

Quero que a minha loucura vença, às vezes, a responsabilidade.

Quero beber uma dose de toda essa imbecilidade, sem dela me embriagar. Não preciso da inteligência bêbada, preciso da idiotice sóbria.

Porque onde falta juízo, nasce a criatividade; porque onde falta juízo, se acredita nos sonhos.

É da liberdade inconsequente e tonta dos pensamentos que nascem as melhores ideias, as melhores coreografias, as melhores canções.

É da tolerância boboca que surge a paz.

É com a singeleza ingênua que se atinge a serenidade.

E é a humildade trouxa que engrandece a pessoa.

Quero pode viver um pouco mais idiotamente.

Quem sabe assim eu consiga ser mais inteligente.


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