A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE UM DIA SEM PROBLEMAS

07.março.2021



Se você está lendo isso agora, tudo indica que você acordou hoje. Agradeça.

E, se acordou sem dor, maravilha! Lombar, pés, pescoço, maxilar, ombro, ouvido, cabeça, ísquios, juntas, ligamentos, tendões. Não faltam possibilidades.

Nenhum olho vermelho, tersol, conjuntivite? Gengivite, rinite, colite, labirintite, dermatite? Nem picada de pernilongo? Você é uma pessoa de sorte.

Você escolhe uma roupa (que bom que ela ainda lhe serve) e vai tomar seu café da manhã (apetite: sinal de saúde), mas você abre o pacote do pão integral orgânico de abóbora e ... bomba! Vê que está mofado. Sem pão, você não tem outra alternativa senão comer brioches. Que sofrimento!

Pega o jornal como ritualmente faz (já parou para pensar que perfeição é ter o jornal te esperando todas as manhãs, sem ter que ir à banca para comprar?) e com tantas notícias ruins que lê, você se lamenta por algumas e se revolta por outras. Reclama do país e já solta um palavrão às 7h da manhã. Mas o que temos para hoje: não tem greve dos metroviários, caminhoneiros ou professores, nem previsão de temporal. Você pensa, pelo menos está tudo funcionando como deveria. Entre nós: quem mesmo lhe deve isso?

Você sai de casa e o elevador está parado no 3º andar. Só me faltava essa, você pensa. Dá duas batidinhas na porta do elevador e o vizinho segura mais 30 segundos, uma eternidade, já que quem segura é ele e não você. Começa a se irritar, mas os números dos andares começam a se mover. Tenta se recompor da raiva, força um sorriso, e enfim o elevador chega, depois de subir para o último andar e voltar. Sem o vizinho. Que sorte, você descongela o sorriso e relaxa. Melhor assim, sem sorriso nem conversa.

Livre para dar a última checada no espelho do elevador, já que está sozinho, você nota um resto de comida preso entre os dentes da frente. Comemore! Nem todos têm essa felicidade de reparar a comida (no caso, brioche) entre os dentes ao sair de casa, a maioria só percebe na volta, depois de passar o dia expondo os dentes maculados.

Atrasado para a reunião, você avança dois faróis vermelhos e exagera na velocidade. Não bate o carro, não atropela ninguém e não é multado. Você é um felizardo, acaba de se livrar de um gasto astronômico e de um processo crime.

Achando-se o maior dos azarados por não encontrar vaga na rua, você se vê obrigado a procurar um estacionamento. Lá você encontra quem? O anfitrião da reunião. Ambos usam a mesma mentira para justificar o atraso num uníssono: “Que trânsito, não?”. Caminham juntos até o escritório enquanto quebram o gelo e chegam já íntimos à sala de reunião, o que impressiona os outros participantes. 7 x 1 para você.

Chegando no estacionamento para retirar o carro, o ticket registra: permanência de 2h03m. Poxa, você pensa, por 3 minutos, hoje definitivamente não é o meu dia. E logo vê a placa “tolerância 5 minutos”. Esses 2 minutos te fazem a pessoa mais feliz do mundo. Mas essa alegria passa logo, assim que aparece o próximo problema.

Meio da tarde. Nenhuma bolha nos pés, internet ok, wifi idem, sem afta na boca, ninguém pediu aumento, não deu nenhuma mancada, nenhuma ligação da escola dos filhos, não sujou a camisa com shoyu, unha não encravou, não queimou a língua com café, o papel higiênico não terminou na sua vez, a sola do sapato não descolou, o zíper da calça não enganchou, não tropeçou e caiu, seu whatsapp não foi clonado, a maçã não estava podre por dentro. Faça uma festa interna.

Ligações, prazos a cumprir, contas a pagar. Você bufa e reclama, quanta coisa ainda tenho para resolver. Oh Céus, que dia! Saiba que “tenho coisas”, “ainda” e “para resolver” são bênçãos. Jogue suas mãos para os Céus e diga amen.

Fim do dia. Nada de terrível aconteceu. Êxito! Considere isso um milagre.

Na volta de casa você passa num supermercado para comprar o pão integral orgânico de abóbora para não passar pelo mesmo transtorno matinal. Mas só encontra pão integral de cenoura e, para piorar, não orgânico. Um absurdo! Você faz a bobagem de ligar para a esposa perguntando se ela precisa de alguma coisa e recebe uma lista enorme. Compra tudo errado, entra irritado no carro e deixa seu celular cair na fresta entre o seu banco e o console. Você tenta pegar com a mão, mesmo de estar cansado de saber que ela não cabe no espaço. Nervos à flor da pele. Depois de esmagar sua mão, você lembra que é só entrar pelo banco de trás, jogar o banco um pouco para frente e, sem nenhum esforço, pegar o celular.

Cansado e com a mão dolorida você chega em casa e tudo o que você mais quer é se largar no sofá, ficar em silêncio, sozinho. Só que os filhos correm em sua direção, se penduram, pedem, reclamam, deduram, se socam, berram. Socorro, seu pensamento grita. Mesmo contrariado, você ri de uma piada de um, se orgulha das notas do outro. Está cansadinho? Calma que tem esse segundo round para detonar você.

Começam, então, os problemas domésticos. E não são pequenos! A água com gás que não faz mais o barulhinho do gás, a toalha molhada na pia, o pouco sal na comida, a pilha fraca do controle remoto, a fronha do travesseiro amassada, o fio do carregador enrolado cheio de nós, o pijama de manga curta que foi parar na gaveta dos pijamas de mangas longas.

Depois de um dia com tantos problemas, você cai na cama. Ronca alto. Mas isso já não é mais problema seu.

Ser feliz cansa mesmo!

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