AS ACADEMIAS (E OS ESPELHOS) VOLTARAM

01.agosto.2020


Resolvi tirar férias das férias quarentênicas. Levei meu inseparável computador e os papéis que insistiram em não se livrar de mim e fui passar dez dias na praia. Um lugar que antes da pandemia tinha a fama de decadente (se é que as palavras ‘praia’ e ‘decadente’ podem caber numa mesma frase). Mas como tudo se relativizou com a chegada do vírus, caíram algumas frescuras e não ousamos, por ora, desprezar o (muito) que temos.

Praia vazia, maré baixa, areia banca, mar azul, sem cadeiras, sem comércio. Só o barulho das ondas. Bastava uma toalha para se largar no paraíso.

Numa das minhas caminhadas de fim de tarde, detecto uma testa conhecida que avistei entre máscara, óculos e chapéu. Se alguma coisa aprendemos nesses últimos meses, é a prestar atenção em expressões corporais de partes que até então eram insignificantes e reconhecer as pessoas pela testa, orelha ou joelho. Com a ajuda dos cabelos loiros tingidos e da forma de caminhar, montei o quebra cabeça e, mesmo com as peças faltantes, reconheci a colega de academia.

Frequentadora assídua, ela estava sempre presente na sala de ginástica, fosse manhã ou tarde. Suas marcas registradas: roupas coloridíssimas, nunca repetidas, batom rosa, e o vício incontrolável de se olhar no espelho de frente, lado, costas, cima, baixo. O marido, invariavelmente suado (menos pelos exercícios do que pelas demandas dela), está sempre a postos. Incumbe-se de carregar a garrafinha de água da sua deusa grega, além de fazer as fotos finais do treino. Faz isso com gosto e encanto. É uma sessão completa de fotos. Em pé, sentada na bike, de costas olhando para trás, cabelo solto, cabelo preso com as mãos. Os ensaios terminam quase sempre com uma simulação de movimentos cenográficos com pesos e barras pesadíssimas.

Nos cumprimentamos e eu instintivamente fui ao protocolar beijinho, esquecendo-me, por um segundo, da pandemia. Na hora H, ambas paralisamos. Os holofotes do sol se voltaram para a cena. Testemunhas pararam tudo para assistir a tentativa de homicídio. Felizmente o ato não se consumou. Demos uma risadinha sem graça. Agradeci em meus pensamentos por minha boca (com a risada sem graça) estar protegida pela máscara. Nunca sei o que fazer com meus lábios em situações embaraçosas.

Pensei: Com essa pausa sem academia, ela deve ter se desprendido do espelho.

Mas rapidamente minha hipótese caiu por terra. Na primeira oportunidade que teve, ela se contemplou no reflexo dos meus óculos de sol, que sequer espelhados eram. Foi uma ação ostensiva e automática. Na primeira frase da conversa, ela já se movimentava para caber nas minhas lentes e se admirar por todos os ângulos. Entrei no jogo e, para dar uma força, lancei o espelho que eu levava nos olhos em direção ao corpo, o que foi bem aproveitado por ela.

Depois de cinco minutos de conversa, ela pede: “Vamos tirar uma foto?” Constrangida, eu não consegui recusar, embora não visse nenhuma razão para isso. Ela entrega o celular para o marido sem nenhuma instrução, o qual já sabia o que fazer. A cada click ele apresentava a foto para a aprovação da exigente musa. Foram necessárias 15 fotos para ela ficar satisfeita. Justo aquela em que posamos sem os nossos óculos e eu saí com os olhos fechados. Não importa, a imagem ficou como ela queria. E prometeu me encontrar no Instagram para me marcar na foto.

Pensei: ela piorou sem os espelhos.

Continuei o papo, estava divertido. Conversamos sobre coisas óbvias da pandemia e, claro, sobre a abertura das academias, que ela esperava ansiosa para acontecer.

Quando meus óculos já não davam mais conta, ela apelou para a sombra que desenhava sua silhueta na areia. Confesso que no início isso me chocou, mas logo dei a minha colaboração liberando um espaço para a sua sombra se expressar com mais liberdade. Poses, inclinações, barriga encolhida, e seu olhar voltado para o espelho da areia.

Terminando o repertório de assuntos possíveis entre nós, tivemos que encerrar o papo. E eu, dessa vez atenta, aceno de longe o tchauzinho. E ela grita animada: “Te vejo na academia. Vê se não falta tanto. Beixxxxo.”

A primeira vez que me olhei no espelho (de casa) depois desse encontro, senti um pouco de inveja da musa fitness. Diante do meu reflexo, sempre vou direto às rugas que insistem em se reproduzir na minha face. Fujo dessa imagem e procuro uma visão mais animadora, mas o meu olhar se desvia instintivamente para as celulites. Saio brigada com o espelho na esperança de no dia seguinte ele me dar uma resposta melhor.

Fiquei com a imagem feliz da musa fitness. Ou será ela infeliz e não sabe?

Dá na mesma. Sem saber que é infeliz, ela é feliz e pronto.

Quem dera todos tivessem um olhar tão benevolente sobre si mesmos.


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