ATE TU ZAP?



Agora foi a vez do WhatsApp incorporar o acelerador da reprodução de áudios. Outra ideia genial para a gente não perder o nosso precioso tempo.

É que nós, os ocupadíssimos, não temos tempo para dar conta de tantas demandas. É Instagram, TikTok, Facebook, Twitter, e ainda tem que sobrar tempo para trabalhar, cuidar da família, ver amigos, passear com o cachorro.

Com tantas obrigações para caber em um só dia, não basta fazer várias coisas ao mesmo tempo, tem que ser em fast motion.

E, assim, nos condicionamos a ter pressa para tudo. Mal a gente começa, já quer terminar.

Não podemos nos dar ao luxo, em pleno século XXI, de viver em tempo normal. Enquanto a gente ouve as mensagens de voz na velocidade 2, dá para, ao mesmo tempo, escovar os dentes na velocidade 1,5, fazer um Pix na velocidade 3 e vestir sapatos na velocidade 2,5. Isso sim é tempo de qualidade.

Ouvir uma música inteira? Coisa do passado! Não faltam aplicativos para enxugar o tempo para 30 segundos, e que ainda recheiam o som com imagens. Esperar o próximo capítulo da novela? Não existe mais! Maratonar séries em tempo acelerado, liquida logo o assunto. Conversar com amigos? Sem paciência, resume! De preferência, que seja por mensagem gravada por WhatsApp para poder ser acelerada.

Por outro lado, reuniões por Zoom são ótimas aliadas para a maximização do nosso tempo, pois além de ter hora para terminar – tanto faz se o interlocutor está no meio da palavra - nos permite fazer outras atividades importantes ao mesmo tempo, sem que ninguém perceba, como lixar as unhas do pé, fazer a lista de compras da semana, limpar fotos do celular.

Jornal hoje em dia a gente vê, não lê. Às manchetes mais chamativas dedicamos alguns segundos, e quando nos interessa muito lemos o resumo, e aproveitamos para enriquecer nosso conhecimento, tranquila e concentradamente, enquanto tomamos o café da manhã e ligamos para dar bom dia para a mãe.

A vida, afinal, é um resultado do que fazemos com os nossos valiosos minutos. É uma questão de escolha do que fazer ou não fazer. Pseudo urgências e hábitos vazios, como se concentrar por mais de trinta segundos em alguma tarefa, organizar a mente, deixar pensamentos fluírem, não cabem nas janelas de tempo que temos.

Pausas? Nem pensar! Isso é para preguiçosos. Precisa emendar tarefas umas às outras e não deixar a peteca cair. Tem que misturar trabalho com família com relações sociais com cuidados da saúde com lazer (sem vírgulas mesmo).

Mas sei lá, às vezes eu caio na bobagem de perder meu tempo pensando.

Pensando que não fomos feitos para ser multitarefas. Que não dá para controlar tudo. Que não dá para tentar enfiar no nosso cérebro a enxurrada de informações e estímulos que recebemos.

Que estamos aprisionados por um padrão de velocidade não natural aos humanos. Que o acúmulo de informações não significa necessariamente aumento da compreensão. Que fazer duas coisas ao mesmo tempo é fazer mal as duas coisas.

Que o empilhamento de informações confunde, sufoca e adoece a mente.

Mas logo surge alguma urgência que me salva desses devaneios e interrompe essas elucubrações inúteis.

A vida é mesmo prolixa, não podemos perder tempo com ela.


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