BLACK FRIDAY, O CHIQUE E O CAFONA

02.dezembro.2020




Na minha opinião, Black Friday e 2020 não combinam. Mas aconteceu. Seria realmente esquisito se fosse cancelado, assim como foi esquisito ter acontecido. Promoções de eletrodomésticos, roupas, hotéis, proteína whey, objetos de decoração, massagens ayurvédicas, design de sobrancelhas, vale tudo.

As ofertas começam uma semana antes, com o Esquenta Black, até chegar em contagem regressiva ao grande dia de sexta-feira, que é prorrogado até segunda-feira, quando entra a Cyber Monday, que depois é prorrogada para a semana seguinte, dando lugar à Happy Week. Os nomes variam, o importante é incluir uma das expressões mágicas, ‘Black’ ou ‘Week’.

Não critico quem aproveitou as promoções, eu mesma comprei uma geladeira para substituir a minha antiga que resolveu pifar na Pré Week. Tentei até um desconto, comparei preços, mas não encontrei nada que me desse o prazer da vantagem. A psicologia é manjada: fazer as pessoas gastarem com o que não precisam, só para sentir o prazer da pechincha. Daí conseguimos entender bem o sistema de recompensa que hipnotizam as crianças diante dos joguinhos eletrônicos. É o prazer da pechincha deles.

Recebi alguns e-mails com ofertas de roupas, enviados por plataformas de marcas de luxo. Apesar de não estar no mood e principalmente sem bolso para comprar, fiquei curiosa para ver as oportunidades anunciadas. Tenho tudo o que preciso no meu closet, ainda mais nessa época de isolamento forçado, período em que minha escolha segue um movimento cíclico. Tenho três moletons: um eu uso, enquanto o outro está na máquina de lavar e o terceiro na secadora. Tem funcionado bem.

Mas como o instinto feminino prefere conjugar o verbo “desejar” ao verbo “precisar”, dei um clique e entrei nos sites para conferir as ofertas. Os modelitos ofuscaram meus olhos com tantos brilhos e cifrões. Achei um tanto descabida a ostensividade das grifes contrastando com a realidade seca e sem brilho que estamos vivendo. Mas fui em frente para visitar o universo golden na Black Friday.

Comecei com uma bolsa tiracolo Gucci com dois imponentes Gês sobrepostos. Para combinar, uma calça jeans com patchwork barroco da Versace estampando um V em cada bolso e uma blusa com mangas bufantes Fendi com um gigante F na fivela dourada. Só aqui já foi todo o meu dinheiro do ano, sem o frete. E nos pés, um scarpin Laboutin com a tradicional sola vermelha. Em cada pé, o valor da minha geladeira nova. E para dar uma graça ao look, um colar J’aDior, da Dior, claro.

Está montado o sanduiche: Dois Gês, quatro Vês, um F, sola vermelha especial e no pescoço um Dior.

Antes que eu seja chamada de bicho grilo, quero deixar claro que aprecio essas grifes, que prezam pela qualidade e o corte das roupas, e valorizo sua importância no mercado.

Mas existe uma linha tênue entre o chique e o cafona. Andar de salto alto, por exemplo. Pode ser chique ou cafona, depende da maneira que a pessoa se equilibra nele. Isso vale para tudo. A diferença reside nas intenções e nas medidas.

Para mim, o mau gosto existencial é a fonte de todas as cafonices.

Exagerar é cafona, ser sutil é chique; seguir a moda é cafona, fazer a própria moda é chique; ser igual é cafona, ser único é chique; ser espalhafatoso é cafona, ser discreto é chiquérrimo; dar beijinho para uma selfie é cafona, dar um beijo sincero é chique; impor uma verdade única é cafona, discutir ideias é chique; não saber perder é cafona, saber perder com dignidade é chique, tão chique quanto saber vencer com humildade.

A lista é tão interminável quanto às ofertas, verdadeiras ou não, do Black Friday. Mas sou obrigada a me conter para não ultrapassar a linha tênue entre a cafonice de insistir numa ideia e a sutileza de provocar pensamentos.


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