CAOS E AMOR

14 de agosto de 2021


- Uma semana sem briga! - ela propôs.

Ele automaticamente pensou “Lá vem ela de novo”, mas antes de ser tomado pela impaciência, sentiu pelo seu tom de voz que não se tratava de um pedido banal, vinha de um lugar mais profundo, de um cansaço.

- Combinado, nenhuma briga. Nem briguinha boba.

E ela pensou “Que ótimo, é só ele fazer a parte dele que a gente fica bem, é sempre ele que começa as brigas”, mas olhou bem para os olhos dele e, enxergando uma sinceridade, resolveu também fazer a sua parte.

Ambos consideraram o desafio difícil. Eles, que sempre acreditaram que o relacionamento entre duas pessoas tinha que fluir naturalmente, que não era bom guardar sentimentos, raivas; que regras são boas para escolas, empresas e países, não para duas pessoas que se gostam. Mas como o trato já havia sido selado e o clima entre eles não estava lá essas coisas, fariam um esforço. Uma semana não era tanto tempo assim.

Começam os testes. Nenhuma novidade: situações que se repetiam no cotidiano, que geravam as mesmas reações, desencadeando as mesmas reações das reações, que acabavam instaurando o clima de embate, até o ponto de eles nem mais saberem o motivo do primeiro gatilho. Desta vez, porém, estavam atentos e foram mais espertos do que as armadilhas.

No primeiro dia ele chegou do trabalho com cara de quem voltou de uma guerra perdida, o que sempre a irritou profundamente. Mas ela se controlou: não criticou, não cobrou ânimo, simplesmente abriu um espaço para ele se ensimesmar. Sem demora, ele saiu da toca com um sorriso livre e uma vontade genuína de estar junto.

Ela falou sem parar do seu novo projeto, reclamou da comida da escola, do seu colega de trabalho, da sua bursite, da cortina rasgada da sala (coisas que não o interessam), tudo ao mesmo tempo (coisa que o enlouquece). Mas ele não ficou mudo, desta vez ouviu atentamente cada palavra, validou suas queixas e respondeu com calma e sensatez a cada uma de suas demandas. Até que ela percebeu que a comida da escola não era tão ruim assim, e reconheceu que rasgada, rasgada mesmo, a cortina não estava, “deixa pra lá, é só um furinho de nada”, reconheceu.

E assim se passaram os dias. Com uma tolerância zero para brigas, lentamente resgatou-se uma tolerância saudável entre eles. Sentiram mais as dores do outro, e isso fez com que as próprias dores diminuíssem.

Sem resmungar, ele aprendeu a tirar a toalha molhada que ela displicentemente deixava todos os dias sobre a cama; ela conseguiu a deixar o controle remoto na mão dele sem reclamar das suas zapeadas esquizofrênicas pelos canais; ele não palpitou quando ela, achando que sabia mais do que o Waze, errou cinco vezes o caminho; ela levou a sério a gravidade do resfriadinho dele e o paparicou tanto, mas tanto, que até ele próprio desistiu da sua doença.

E naturalmente, sem deixar a naturalidade da rotina despreparada os dominar, eles começaram a rir mais um do outro. Rindo mais do outro, riam mais de si mesmos. E paradoxalmente, quanto mais conseguiam se policiar, mais naturalmente fluía a relação.

Passada uma semana, eles cogitaram fazer de novo. Mas o medo de não conseguir e provocar um retrocesso era tão grande quanto à vontade de apostar. A coragem venceu e eles traçaram a nova meta, agora mais ousada.

- Mais duas semanas?

- Duas semanas! Nem briguinha boba.

Eles mantiveram as conquistas da semana anterior e avançaram novos territórios, agora mais profundos. A paz abriu caminho para que sentimentos escondidos migrassem para a pele. Se lembraram do quanto se amavam, como se isso estivesse sempre óbvio, e reiteraram a escolha um pelo outro.

A magia paz e amor reinou por mais duas semanas. Eles sabiam, porém, que não se pode arriscar tanto em apostas. Quando chegaram à data final, nenhum dos dois propôs nada, ao mesmo tempo que, finalmente, entenderam que brigar ou não brigar era, sim, uma questão de escolha e que as coisas entre um casal não podiam rolar naturalmente com base no nada.

- Foi ótimo, amor. Tá vendo que é só você fazer a sua parte?

- Como assim? Eu sempre faço a minha parte! Foi você que parou de reclamar, de me cobrar, me tratou bem...

- Eu sempre te trato bem! Mesmo você sendo tão egoísta, egocêntrico, que vive no modo mute, e ainda por cima parece um neurótico que fica zapeando os canais a noite inteira e quando dá uma espirradinha acha que vai morrer.

- Para de falar tudo ao mesmo tempo, você sabe o quanto isso me irrita. E agradeça que eu tirei as suas toalhas molhadas da nossa cama, aguentei você falar seis horas seguidas do seu projeto, da cortina, da tendinite...

- Bursite! Tá vendo como você não tá nem aí para mim?

Os nervos foram se inflamando e o equilíbrio que tinha sido cuidadosamente construído durante três semanas se desmoronou em poucos minutos.

Acontece que, no fundo, no fundo, os dois até que ficaram aliviados da perfeição que reinou sobre eles durante esses dias tão felizes. Estava bom demais.

E veio a contraproposta:

- Amor, três semanas de caos?

- Fechado, com uma cortina nova na sala!


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