CARTA PARA UM FILHO ADOLESCENTE

16.janeiro.2022



Me abre um espaço do seu tempo trancado em si, no seu quarto, no mundo dos seus amigos, para ouvir o que eu tenho a te dizer. Desta vez é importante, não vai ser fácil para você, muito menos para mim.

Sempre te ensinei que temos que ser sinceros um com o outro. Preciso, então, te falar uma coisa que está engasgada: Eu não te amo mais como te amava.

Confiei na sua graça, na sua pureza, na estreita e doce relação estabelecida entre nós que, pensei, já tinha sido conquistada e seria assim para sempre. Você pedia mais de mim, queria mais, e eu dava. Dava tudo que eu podia e um pouco mais. Me multiplicava e dava a você fragmentos de mim.

Te ensinei coisas que hoje você nem sabe que um dia aprendeu.

Mas você me traiu. Você correu rápido demais e fez o tempo também me trair. Se antes você corria para mim, agora corre para lugares por mim desconhecidos. Você vive numa metamorfose que não se cansa, se transforma tão rápido quanto uma mágica, cujo truque é indecifrável. E essa magia me faz encontrar uma pessoa diferente a cada dia, um novo filho que nasce fora da minha barriga, já crescido.

Você escolhe quando quer ser adulto e quando quer ser criança. E eu tenho a esperança secreta de que você aja como um adulto, mas continue sempre sendo a minha criança.

Essa visão turva da criança e o adulto, presos no corpo de um adolescente, me confunde. Fico confusa quando você chora e ri ao mesmo tempo, quando não sabe se me quer perto ou longe, quando está em paz ou em guerra com o mundo – talvez porque em guerra consigo mesmo. Você quer que eu deixe a minha porta fechada, mas me pede para não trancar; ao mesmo tempo que deixa a sua porta trancada. Quando precisa de ajuda para organizar sua bagunça interna, me convida para entrar. Eu entro, te ajudo na limpeza das dúvidas e das angústias, e depois você volta a se trancar e me deixa do lado de fora.

Hoje já não te alimento mais, não escolho as suas roupas, é você quem elege as fontes que te alimentam e as roupas que te representam.

Por isso, meu filho, não dá mais para te amar como antes.

Porque antes você dependia de mim, era um pouco a minha extensão, a projeção das minhas melhores esperanças. Porque antes você cabia no meu colo, me enchia de palavras doces, tinha uma pele de veludo, ria das minhas brincadeiras. Porque antes você aprendia e aceitava tudo que eu te oferecia. Porque antes você me olhava como uma heroína.

Eu sei, assim é muito fácil amar.

Não te amo mais como antes, porque você não leva mais a minha penumbra. É menos lua e mais sol. É um mar imenso com possibilidades sem fim, que carrega um mistério, que ora se revela nas ondas, ora se esconde nas profundezas desse oceano.

Por isso, não te amo como antes: te amo muito mais.

Te amo mais, mesmo quando você me culpa por todos os seus problemas. Te amo mais, mesmo quando a sua barba e as suas palavras me machucam, mesmo quando você ri, não das minhas brincadeiras, mas da minha lerdeza tecnológica, do meu inglês. O mesmo inglês que eu te ensinei e que você soube aprender melhor, assim como fez com todas as coisas que eu te ensinei. Te amo mais, porque hoje é você que me ensina.

Te amo mais hoje, porque é um amor mais difícil, menos fofo, por isso mais consistente, mais profundo. Porque esse amor não passa mais por mim, ele é totalmente seu.

Te amo mais, porque hoje você é você, uma pessoa que eu jamais seria capaz de gerar.



Receba as novas publicações

Clique aqui para ler outros posts

7 comentários