CASA COMIGO?

15.junho.2021


Sou daquelas que se emociona com cerimônias de casamento. O noivo ansioso, os pais extasiados, as daminhas, o momento mágico da entrada da noiva, o sim, as bênçãos, tudo isso enche meus olhos de lágrimas.

Ultimamente tenho me emocionando, também, com pedidos de casamento. Tantas histórias lindas de pedidos de casamentos que ouço de parentes, amigos e famosos.

Numa dessas, me dei conta de que nunca fui pedida em casamento pelo meu marido. Na época em que nos casamos foi tudo tão natural e óbvio, que praticamente combinamos ‘quando’, sem precisar perguntar ‘se’. Não fui surpreendida por um par de alianças dentro de um petit gateau, nem por uma serenata, nem por um avião com uma faixa romântica, nem sequer com pétalas de flores espalhadas no chão de casa. Nenhuma surpresa, nenhum mistério.

- Quero ser pedida em casamento! – falei para ele assim que ele abriu a porta de casa.

- Você enlouqueceu? Estamos juntos há vinte anos. Por que isso agora?

Tirei minha aliança do dedo e entreguei a ele dizendo que me sentia ilegitimamente casada diante da falta daquele pré-requisito. Pedi para ele usar a criatividade e resgatar o seu romantismo. Antes tarde do que nunca, essa lacuna deveria ser preenchida.

Ele pensou que fosse mais um dos meus devaneios, mas depois se deu conta que eu estava falando sério.

Fim de semana fomos para o litoral, ele sabe que praia me acalma. Fomos quinta-feira, final de tarde, quem sabe eu esquecia dessa maluquice. A praia, entretanto, não fez sumir a pendência pré-matrimonial. Na manhã de sexta-feira ele me convidou para uma caminhada, mas pediu que eu esperasse alguns minutos. Ele foi à praia e escreveu na areia um gigante “quer casar comigo?” e em seguida veio correndo me chamar. Só que até eu terminar de passar o protetor solar a água já tinha engolido o seu pedido de casamento e, quando chegamos à praia, fizemos a caminhada habitual, sem nada diferente na areia.

Mais tarde, ele tentou de outra forma. Combinou com o vendedor de pamonhas passar na frente de casa e anunciar o pedido de casamento no alto-falante, alto e em bom tom, desta vez sem o risco de a água apagar. Acontece que o homem teve tanta sorte nas vendas que apareceu duas horas antes do combinado, justo na hora da nossa siesta, enquanto nós dois roncávamos. Do pedido de casamento sobraram apenas os vinte curaus de milho que meu marido comprara do homem.

Sentindo-se um pamonha, meu marido pensou em outra ideia genial, agora infalível. Escreveu um poema, colocou dentro de uma garrafa e combinou com as crianças de “acharem” a garrafa quando estivéssemos todos na praia. Assim que ele largou a garrafa na areia, um apito soou. Dois salva-vidas vieram em sua direção o repreendendo por estar poluindo a praia, sem dar oportunidade para ele explicar que se tratava de um ato romântico e não de um cachaceiro. A garrafa e o poema foram parar no lixo.

Tanta dificuldade para realizar essa simples façanha, fez com que ela se tornasse uma questão de honra para ele. Tentou escrever o pedido com post its, feijões, ketchup, mas a ligeireza da arrumadeira da casa não o deixava terminar a frase.

De noite, quase desistindo, ele tentou a última cartada. Eu estava serena, e até já tinha me esquecido da nossa pendência... milagres da maresia. Ele pegou o prato da sopa de letrinha das crianças e, entre uma colherada e outra, foi caçando as letras. Quando eu menos percebi, ele colocou na minha frente um guardanapo com as letrinhas formando um “CASA COMIGO?”

Chorei como se estivesse assistindo à minha própria cerimônia de casamento. Tirei as letras ‘S’, ‘I’ e ‘M’, da própria frase por ele construída. E devolvi para ele o prato com o que sobrou: “CA_A CO_ _GO?”. Minha resposta estava embutida na sua pergunta.

É claro que sim, nem precisava perguntar!



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