CINEMA PARADISO

27.janeiro.2021

Yuval Robichek


Quase um ano sem ir ao cinema. Desde que o PARASITA invadiu o nosso planeta e vivemos O FEITIÇO DO TEMPO, em que cada dia acordamos na mesma hora e lugar, fomos forçados a dar um FROZEN em algumas atividades que faziam parte da lista de coisas que tínhamos como certas e garantidas. Entre elas, a sétima arte.

Muitos estão compensando com séries e filmes em casa, que até valem como CORINGA, mas nada substitui a experiência coletiva sem igual do ESCURINHO DO CINEMA.

Ir ao cinema hoje parece uma MISSÃO IMPOSSÍVEL. Resta-nos fazer um exercício DE VOLTA PARA O FUTURO e imaginar como será a próxima primeira vez, mesmo que isso hoje seja apenas UM SONHO DE LIBERDADE.

Não compro as entradas pela internet, quero fila no meio de GENTE COMO A GENTE. Com boca e nariz à mostra, entrego os ingressos sem medo de encostar na mão da bilheteira. Me acomodo na poltrona e fico DE PERNAS PARA O AR assistindo atentamente aos trailers, propagandas e avisos. Uma tosse vem de UMA ESTRANHA ENTRE NÓS da poltrona ao lado. Com MUITA CALMA NESSA HORA, permaneço serena e não me preocupo em calcular se é tosse-normal ou tosse-Covid. Continuo a tomar minha Coca Cola, mesmo que o copo esteja exatamente na divisa das nossas poltronas.

Estou tão DE BEM COM A VIDA que não me irrito com a cabeçona na poltrona da frente que atrapalha minha visão, nem com as luzinhas azuis vindas de celulares. Não faço ‘shhh’ para o casal que comenta em RELATOS SELVAGENS todas as cenas do filme.

Chega um atrasado, como um NÁUFRAGO (que obviamente entra pelo lado errado da fileira) tentando equilibrar dois pacotes de pipoca SUPER SIZE ME na mão e uma garrafa de água no queixo. Não fecho a cara nem fecho o caminho com os meus joelhos.

AS HORAS passam rápido. Saio feliz e plena do cinema, afinal, A VIDA É BELA e hoje somos todos VINGADORES de 2020. Para o grand finale não podia faltar a selfie com OS BONS COMPANHEIROS abraçados, para postar nas REDES SOCIAIS e tornar público que estamos CURTINDO A VIDA ADOIDADO. Legenda do Post: ‘Carpe diem. Aproveitem o dia, rapazes. Tornem suas vidas extraordinárias’ - SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

Gostou da ficção? Agora o documentário.

Ingressos pela internet. Compro um combo incluindo duas poltronas de cada lado para não correr o risco de ficar CLOSER – PERTO DEMAIS de alguém. Pipoca feita em casa, pipoca degustada em casa. MASKARA, face shield, luvas descartáveis, álcool 70% e dois panos.

Chego dez minutos antes da sessão para a assepsia necessária. Arremesso os ingressos para a mão da bilheteira e imediatamente troco de luvas com um cuidado EXTRAORDINÁRIO.

Como uma CAÇA FANTASMAS, considero SUSPEITO todo e qualquer desconhecido que se aproxima de mim. TOLERÂNCIA ZERO para qualquer pigarro, mesmo que venha da primeira fileira.

Uso a velha tática de esticar as pernas para deixar SEM SAÍDA qualquer um que ouse passar pela minha frente. Me irrito com as pernas de um TOC TOC atrás de mim que não para de se balançar e provoca um TERREMOTO na minha poltrona. Fico por alguns segundos DE OLHOS BEM FECHADOS e pratico minha respiração meditativa. Um barulho de canudo sugando as últimas gotas do copo de papelão me desperta, o que me deixa À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS.

Mal começa o filme e chega A HORA DO PESADELO: aparecem OS INFILTRADOS espertinhos, que se julgam MENTES BRILHANTES e ocupam as (minhas) poltronas vazias ao meu lado. Na dúvida entre GUERRA E PAZ, controlo meu INSTINTO SELVAGEM e decido não discutir para evitar perdigotos no ar.

Aflição e pânico quando A PELE QUE HABITO encosta acidentalmente no braço de um CAVALEIRO DAS TREVAS.

Tensão. Irritação. Medo. Ameaça. Desconforto. Paranoia. ALTA ANSIEDADE. Arrependimento. Levanto-me da cadeira e, EM RITMO DE FUGA, corro para casa para acabar de vez com a CONDUTA DE RISCO.

PONTO FINAL – MATCH POINT.

“A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente” - O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON


clique aqui para ler outros posts

inscreva-se no site


4 comentários