COLEÇÕES

16.dezembro.2020



Meu primeiro trauma de infância aconteceu quando meu irmão trocou meus papéis de carta com uma vizinha, enquanto eu estava na aula de ballet. Mal tirei as sapatilhas e ele anunciou o grande negócio: saíram os raríssimos, importados e os com cheirinho de framboesa; entraram papeis de carta ordinários, sem valor de troca e cheirando a desodorante. Na medida em que eu folheava a pasta, meu mundo desmoronava. Aquela coleção era a minha vida.

Convoquei as crianças do prédio (boas lembranças do Edifício Juriti!) para uma reunião extraordinária a fim de tratar do assunto. As meninas me apoiaram efusivamente, com exceção da golpista, que ficou do lado dos meninos. Em contrapartida, meu irmão ficou do nosso lado, pois também tinha sido vítima do ardil. Diante do empate, a questão teve que ser resolvida com a ajuda dos adultos. Após algumas considerações sobre o conceito de posse, propriedade e dolo, minha mãe sentenciou: as trocas não tinham validade jurídica e o negócio estava desfeito! Ninguém ousou discordar, afinal, além de conhecerem sua imbatibilidade quando agia em defesa dos filhos, aquilo era realmente o mais justo.

Escorpiana que sou, me vinguei do meu irmão e tosei os dentes do selo mais raro de sua coleção, um olho de boi do governo imperial brasileiro, usando a própria pinça que ele usava para manuseá-lo cuidadosamente.

Na mesma época colecionávamos secretamente tatus-bolas. Depositávamos as pobres bolotinhas dentro de caixinhas de fósforo e os nossos pais, não sabendo das vidas que dentro delas habitavam, questionavam a falta de sentido de colecionar imprestáveis caixas de fósforos vazias.

O fato é que, diferentemente dos papéis de carta, que eram conquistados com suor e lágrimas, colecionar tatus-bolas não exigia praticamente nenhum esforço. Eles se entregavam sem nenhuma resistência, não se debatiam, não fugiam, simplesmente obedeciam e entravam nas caixinhas dando cambalhotas para fazer companhia aos seus pares prisioneiros. Era uma conquista fácil demais, o que fez a paixão pela coleção durar pouco. Entendi, naquele momento, que o que vem de graça, não tem graça.

Outra coleção histórica foram as figurinhas “Amar é...”, verdadeiro Hit dos anos 80. Românticas e repletas de filosofias baratas sobre o amor resumidas em frases únicas. “Amar é ... deixar ele ficar com o controle remoto” (desde que ele aperte no botão que ELA escolheu, concordo), “Amar é ... comer pizza juntos todos os sábados” (os celíacos e intolerantes à lactose não têm o direito de amar?), “Amar é ... passar o dia todo ao lado dele no trabalho” (divórcio no dia seguinte), “Amar é ... deixar espaço para as coisas dele na mala” (e os vinte pares de sapatos dela, como ficam?), “Amar é ... quando nada mais importa” (sufocante!), entre outras 485 frases incrivelmente profundas.

Longe dessa fofura, veio a febre da coleção de maços (vazios) de cigarros. Hilton, Free, Kent, Kent mentolado, Pall Mall, Camel, Palace, Charm, Minister, L&M, Palace, e claro, o Vila Rica, “o importante é levar vantagem em tudo, certo?”.

Bolinhas de gude, conchinhas, fitas métricas, chaveiros, ioiôs, miniaturas de refrigerantes, ‘bitucas’ de lápis usados, copos de requeijão, obras de arte, carros antigos, porcelanas portuguesas, ex mulheres. Cada um tem a motivação (e bolso) para o seu colecionismo.

Tentei colecionar objetos de viagens, movida pelo desejo de agarrar-me às minhas melhores experiências. Caixinhas, folhas de árvores, bolachas de chopps, bottons e até areia eu colecionei. A ideia era encapsular fisicamente emoções e lembranças que eu vivenciava nas viagens. Mas a coleção não se sustentou, simplesmente porque existem experiências impossíveis de se materializar. Preferi delegar à memória a tarefa de armazenar essas lembranças.

Confissão: Guardo até hoje minha pasta de papeis de carta, não tive coragem de jogar. Talvez pelo apego à lembrança daquelas folhas em branco, vista aos olhos de uma menina, que teria muito o que nelas escrever.


clique aqui para ler outros posts

inscreva-se no site


5 comentários