COMENDO MUITO?

01.junho.2020


Tentei contar quantas vezes por dia a geladeira de casa é aberta. Desisti por razões óbvias. Mas garanto que passa de cem.

Parti para o fogão, todas as bocas estavam ocupadas, preferi não interromper o calor.

Resolvi ser mais prática e me focar nos eletrodomésticos: liquidificador, batedeira, torradeira, processador. Todos exaustos, perdi a coragem. Não posso estafá-los, preciso deles em boa forma.

A quarentena não só mudou nossas funções pessoais, como também a dos nossos objetos domésticos. A geladeira acumula o papel de confessionário. Nada mais coerente, afinal ela congrega e mantém frescas as nossas tentações. O fogão ensina que tudo tem o seu tempo e intensidade. O melhor dos pratos acontece com um fogo brando, é precedido de escolhas e de um bom preparo, não aceita pressa (para quem não gosta de comer cru), nem distrações (para quem não queira passar do ponto). Com os eletrodomésticos, aprendo a ser prática. Na falta de algo mais elaborado, são eles que resolvem o problema com agilidade e eficiência. Eles nos provam que, toda sujeira que fazemos, uma hora vamos ter que limpar - cada um escolhe o tamanho da sujeira que se dispõe a limpar depois - e que sujeira acumulada sufoca o mecanismo, com um provável risco de pane.

Voltando para onde comecei: o fato é que quando estou feliz, vou para a geladeira a procura de algo salgado ou refrescante. Quando triste, vou para a geladeira a procura de um doce. E quando não estou nem feliz nem triste ... bem, vou para a geladeira só para não perder o costume.

É praticamente um contato ininterrupto com o assunto comida.

Mal saio da mesa do almoço e já lanço minhas energias para o jantar. E rezo para ter criatividade suficiente para agradar os gostos - gregos e baianos - das bocas que alimento, sem precisar apelar para as batatas-fritas e cupcakes. Se bem que aqui, onde não entrava frituras nem arroz branco, as coisas mudaram muito. As crianças ficam eternamente gratas.

E a perseguição não para. Estou no meio de um trabalho, teclando, concentrada até onde um home office com a casa cheia permite. Meu estômago ronca. Minhas papilas gustativas entram em ação. Penso: é só um minutinho. Aperto o botão de menos na parte superior direita da tela, deixo o trabalho de lado e dou um Google em busca de receitas maravilhosas (quase nunca maravilhosas). Uma receita me leva à outra, em seguida me leva à lista de compras dos ingredientes. Olho para o relógio, “hora de almoçar, todos na mesa!” E o trabalho continua minimizado na tela, para ser retomado numa das minhas pausas entre as refeições.

O auge acontece às noites, que agora estão mais longas nesse solstício de inverno. Não sei por que somos tomados por um apetite maior de noite. Talvez devido à ausência de testemunhas; talvez porque, à noite, a luz da razão esteja em meio tom, o que nos permite viver o melhor das paixões, incluindo o que elas tem de ruim.

A culpa sempre chega. Só não chega para os que desistiram de si mesmos ou para os magros irreversíveis (estes têm ataques de gula?). Para os familiarizados com o sentimento de culpa, por outras razões que não a comida, ela aparece assim que o pecado atravessa a garganta, enquanto passa pelo esôfago, sem dar tempo do prazer chegar ao estômago. Para os mais liberais a culpa chega na manhã seguinte, acompanhada de um juramento de um controle maior, acumulando ao pecado da gula, o de jurar em vão.

Têm os que raciocinam matematicamente. Calculam as calorias que entraram e partem loucamente para os exercícios no intuito de diminuir o superavit.

Afinal, por que tanto medo de engordar? Não conheço ninguém, hoje em dia, que não sofra de lipofobia, seja por razões estéticas ou de saúde. É fato: nossa vida não existe sem a dieta na cabeça.

Seja qual for a razão desse medo, definitivamente não é hora de declarar guerra à gordura. Seria uma guerra perdida. Cada um de nós, dentro do seu aquário, está aprendendo uma nova forma de viver. Precisamos, mais do que nunca, de energia para essa empreitada e de calorias extras para compensar a falta de calor humano.

Os elásticos dos moletons estão do nosso lado. No outro time estão as tentações que nos rodeiam. Quanto mais tentamos nos afastar delas, mais as tentações nos perseguem com suas táticas maquiavélicas.

Fazer as pazes com os nossos desejos é a melhor forma de dominá-los.

Uma elegância, antes de ser física, é metafísica.

Mais do que um corpo saudável e esbelto, a elegância é aceitar a nossa humanidade imperfeita.


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