DESMEMORIADA EU?

16.dezembro.2021

Dizem que minha memória não anda boa. Não lembro exatamente quem tem me difamando desta forma, isso não importa. Mas eu garanto: minha memória está em plena forma.

Não é porque às vezes eu me esqueço do pão na torradeira, perco a caneta, as chaves e o celular, é que sou uma desmemoriada. Quem nunca? Quando fui surpreendida procurando o celular usando a lanterna do próprio celular, vieram com uma conversa que eu precisava urgentemente de ajuda: magnésio, fósforo, psiquiatra, espinafre, Sudoku e não lembro mais o que. Exagero. Distrações são absolutamente naturais nos dias de hoje com tantas coisas que a gente tem para se... Me fugiu a palavra. Mas você entendeu.

Outro dia, não me recordo nem quando nem onde, alguém precisava do número do meu telefone. Como eu só me lembrava do fixo, passei o número, me esquecendo do pequeno detalhe de que faz tempo, há uns cinco anos (ou será dois meses?) abdicamos da linha fixa em casa. Agora, querer que eu saiba de cor o número do meu celular é um contrassenso: além de ser inútil, mesmo porque não tenho o costume de ligar para mim mesma, é um desperdício gastar espaço da memória do meu cérebro se a memória do próprio aparelho pode me dar essa informação. Basta saber a senha do celular, que para minha garantia levo anotada num papelzinho que carrego comigo na carteira, e pronto. Isso quando não deixo a carteira em casa.

Tentam nos enlouquecer com a infinidade de senhas que somos obrigados a memorizar. Em protesto contra essa ditadura, faço questão de não decorar número nenhum. É muito mais prático apertar no botão “esqueci minha senha” cada vez que entro num aplicativo e inserir uma nova senha. Acontece que quase sempre minhas senhas são consideradas fracas, mesmo porque eu insisto na ideia genial de colocar minha data de nascimento, sempre esquecendo que a ideia não é tão genial assim. Até aí nenhum problema, já virei especialista em misturar caracteres especiais com letras maiúsculas e números, numa sequência que até o computador tem dificuldade de memorizar.

E tem também a questão da... O que mesmo ia dizer? Ah, esquece. Se eu não lembro é porque não era importante. Essa é a regra.

Datas de aniversários são outro exemplo de desperdício de memória. São tantas datas para lembrar, para no fim a gente deixar escapar justo as mais importantes, como o aniversário de casamento ou o aniversário da sogra. Deixar isso a cargo da nossa memória é arriscadíssimo, por isso é melhor delegar a tarefa ao cérebro do calendário, que me notifica todas as datas especiais do ano. Até hoje nunca deixei de dar nenhum parabéns e estou bem na fita com a minha sogra. Agora me diz, isso é falta de memória?

Um dia desses (ou foi antes da pandemia?) eu saí para buscar meu filho da escola. O caçula, talvez o mais velho... tanto faz. No caminho fiz algumas ligações, me envolvi com as conversas e acabei passando reto pela escola. Quando estava quase chegando em casa sem o menino - e sem perceber que estava sem o menino - recebo uma ligação dele me avisando que tinha se virado com uma carona e já estava em casa. Não tenho dúvidas que foi o meu subconsciente que me fez ignorar a escola, pois já estava na hora de dar mais autonomia a ele. Isso se chama intuição materna, o que nada tem a ver com a qualidade da memória.

Admito que, às vezes, me fogem alguns nomes. Afinal, são tantas as pessoas que conhecemos ao longo da vida. Trata-se, porém, de um detalhe irrelevante, mesmo porque a pessoa é muito mais do que o seu nome. É assim que temos que enxergar o outro: sem rótulos. E nesse ponto, minha (falta de) memória está agindo corretamente.

E se fosse para a gente decorar quais são os números primos, a fórmula de Bhaskara ou onde fica a Moldávia ou o Tajiquistão, qual seria a utilidade do Google?

Tem vezes que acontece de eu me lembrar de alguma coisa super inteligente para falar numa conversa. Mas logo me esqueço o que acabei de lembrar, me lembro de novo e no fim acabo esquecendo o que ia falar. Falha minha? Claro que não. Apenas me sinto pressionada pela pressa das pessoas, essa urgência em que as conversas são tão telegráficas e resumidas. Resultado: falta de conteúdo. E não venham culpar a minha memória por isso.

Quando repito oito vezes a mesma história como se fosse uma novidade, a pessoa se irrita, corta o papo e diz “você já me contou”. Ora, cada vez que a gente conta uma história ela é uma nova história, com outros detalhes e nuances. Em vez de me aconselhar a exercitar a minha memória, o conselho correto seria: pessoas, treinem a sua paciência!

Dizem que o esquecimento é uma bênção. E não é que fui agraciada em plena segunda-feira? Passei o dia achando que era domingo, estranhei o movimento na rua, as pessoas apressadas, enquanto eu continuava com a felicidade remanescente do fim de semana. Dia seguinte fui surpreendida com a terça-feira, que por sinal foi mais produtiva de que uma simples segunda-feira. Uma verdadeira bênção.

E o mais importante é que... (perdão, peço só uma licença para ir à cozinha tomar uma água e volto em um minutinho para concluir o texto,


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