DIVERTIDA MENTE

07.julho.2020

Um filme, que está depositado no meu arquivo interno “filmes que adoro”, o maravilhoso ‘Divertida Mente’ (no original ‘Inside Out’), veio esses dias visitar a minha mente (não tão divertida). Apesar de ser uma animação com imagens infantis, é de uma profundidade impressionante.

Como nada é por acaso, penso que o filme tenha ressurgido em mim talvez para ajudar a elaborar as minhas emoções e entender - ou melhor, aceitar (entendendo ou não) - as emoções daqueles que convivo nessa quarentena.

O filme é protagonizado por uma menina de onze anos de idade, em cuja mente moram cinco figuras personificadas: a Alegria, a Tristeza, o Medo, a Raiva e o Nojo. Eles trabalham confinadas numa sede, num misto de disputa e colaboração. Passam o dia processando informações, transformando-as em sentimentos. No fim da jornada, definem quais fatos e sentimentos permanecerão na memória (importantíssima!) e quais irão para o lixo.

Não existe hierarquia entre eles: Tristeza e Alegria têm a mesma importância. Medo e Raiva mantêm uma espécie de parceria, protegendo e estimulando-se mutuamente. Raiva pede justiça, Medo não se importa com isso; Medo pede cautela para avançar, enquanto Raiva atropela tudo que vê pela frente quando se vê contrariada. Nojo, que bebe um pouco da fonte da preguiça na companhia de Tristeza e Medo, assume um papel protetivo, rejeitando interferências que possam provocar uma intoxicação danosa à garotinha.

Alegria é fominha e workaholic. Incansável, tenta prevalecer no quinteto e vive na esperança de neutralizar sua colega Tristeza, para o bem de ambas. Mas Tristeza resiste, defendendo que uma dose de melancolia é essencial para que a alma se expresse nos momentos de dificuldade e introspecção; e acredita ser a melhor oportunidade para reformular pensamentos. Afinal crescer é dolorido mesmo.

Trago as cinco figurinhas fofas para o nosso momento.

Mesmo na pandemia Alegria não perde sua euforia. Acorda já cantarolando: “A vida é linda! Vamos sair e olhar à nossa volta, quanta coisa maravilhosa há no mundo. Andem logo seus desanimados! Não podemos desperdiçar nenhum minuto da nossa existência. Vamos tirar o dia para nos divertir e, claro, fazer muitas selfies sorridentes para tornar pública a nossa felicidade.”

Angustiado, Medo levanta-se de sua cama esterilizada e, com sua máscara N95 e seu escudo facial, diz: “Você enlouqueceu Alegria? Não está lendo os jornais?” Pausa para o álcool gel. “Como sair de casa se meu despertador toca de meia em meia hora para me lembrar de lavar as mãos, o que cumpro religiosamente!?” Pausa para o álcool gel. “A peste está no ar, nas coisas, nas pessoas, nos plásticos, nos papelões, nas cascas das frutas ... em todos os lugares. E você falando em se defrontar com inimigos mortais que estão nas ruas!?”

Enquanto limpava cuidadosamente os cantos de suas unhas com palito de dente, Nojo intervém: “Alegria, não vê que estamos enjoados com tantos blá blá blás de autoajuda tentando nos animar, ad nauseam, desde que começou essa história de pandemia? Ademais, não pretendo sujar os meus sapatos nas ruas imundas.”

Raiva, vermelha e histérica, interrompe aos berros: “Não aguento mais esse assunto!! Mais de cem dias com essa ladainha. Calem-se! Tive vários Zooms hoje, aturei imagens de pessoas congelando na tela, meus ouvidos tiveram que ouvir vinte falas irritantes ao mesmo tempo, meu cachorro latindo ao fundo... parem com essa discussão insuportavelmente fútil. Não é justo eu ter que ficar ouvindo vocês depois de um dia tão estafante e desagradável. Tudo na vida acontece diferente do que eu espero.” E provocou: “Alegria, me diga afinal: você não tem medo de nada? E Medo, faz um favor, vá respirar um ar lá fora e livre-se um pouco de você mesmo.”

Tristeza, com sua voz grave e pesada, diz lentamente: “A vida está tão difícil. Sempre foi. Agora está pior. Ainda vai ficar pior. E não tem a menor chance de melhorar.”

Tentando conter o choro de Tristeza, Alegria tenta: “Ânimo, amiga, pare de encarar as coisas com pessimismo. A vacina logo chegará e você sairá dessa depressão.”

“Como assim?”, perguntou Tristeza soluçando ainda mais. “Agora que eu estava mais leve por me sentir compreendida por tanta gente igual a mim, e aliviada por ter a quem culpar pelo meu desânimo, você me vem com essa de vacina? Quando vier a cura, se é que virá, serei obrigada a ficar feliz. A responsabilidade por todo o meu sofrimento voltará às minhas mãos, isso será terrível.”

Raiva teve uma vontade quase incontrolável de se manifestar, mas como conhecia sua natureza colérica e, entendendo que a conversa era séria, conseguiu se conter.

Penalizada por Tristeza, Nojo se dirige à obstinada Alegria e confessa: “Às vezes, Alegria, eu fico nauseado com tanta energia positiva.” E arremata com a pergunta: “Por que você acha que algo está errado se a gente não estiver sempre feliz? Você não sofre com o peso de ter que estar permanentemente feliz?”

Medo, tira a máscara e viseira faciais e, orgulhando-se de sua coragem, se dirige à Tristeza: “E você, Tristeza, apesar de sua má fama, eu sei que às vezes você alcança níveis mais profundos de felicidade do que a Alegria. Mas você não acha que se leva a sério demais?”

Um silêncio perturbador toma conta da sede. Os cinco trocam olhares de aceitação, reverência e uma profunda vontade de se fundir.

Vem, em seguida, a promessa de trabalharem em harmonia, mesmo sabendo, no fundo, que no dia seguinte acordariam revigorados lutando pelo comando, cada um com sua personalidade preservada, mas, quem sabe, aceitando um pouco mais o outro.


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