DO LAR



Depois de vinte e cinco anos ininterruptos de advocacia, entre audiências, sentenças e recursos ordinários, tive a extraordinária ideia de tirar um ano sabático.

Não tinha nenhuma lógica: eu gostava do que fazia, estava num bom momento profissional, em paz e amor com meus companheiros de trabalho, tinha carinho pelas causas e até mesmo pelos clientes mais chatos. Mas como eu nunca fui muito apegada à lógica das coisas, foi fácil me convencer que era hora de dar uma parada.

Recorri a uma dose de irresponsabilidade e banquei a decisão. Tive que reunir coragem para buscar uma nova identidade que me representasse (somos a nossa profissão?); coragem para me organizar sem uma mesa de trabalho, sem horários, sem prazos nem uma agenda cheia de “compromissos sérios”; e principalmente coragem para, ainda que provisoriamente, deixar de ser advogada para ser... nihil !

Aos poucos fui me libertando da saudade da rotina do escritório, do Código Civil, das justiças e das injustiças, e consegui, por fim, um habeas corpus para viver tranquilamente o meu ano sabático. Considerando que o ano sabático começa num sábado, eu já estou na terça-feira, e eis-me aqui, mais exausta do que nunca.

Ao invés de descascar pepinos judiciais, me ocupo hoje de descascar batatas e resolver abacaxis domésticos. A jornada de trabalho dobrou, tive que aprender a estar em vários lugares ao mesmo tempo e, sem hora para o cafezinho nem direito ao descanso semanal remunerado, o dia se tornou uma coisa só, una e indivisível.

Aos poucos fui sofrendo esbulho da posse dos meus pertences, já que na qualidade de uma desocupada na vida, os invasores concluíram que eu não precisava mais de um espaço que fosse só meu. Meu computador, por exemplo, que era de minha exclusiva propriedade, foi desapropriado sem nenhuma notificação prévia. Para conseguir a imissão na posse sou obrigada a apelar a balas e chicletes, partir para uma corrupção ativa até conseguir uma composição amigável que garanta uma posse pacífica.

E tem mais. Se antes eu representava apenas uma das partes num litígio, hoje acumulo a função de acusadora e defensora ao mesmo tempo nas brigas dos meninos e, quando vislumbro algum risco de lesão corporal, sou obrigada a assumir também o papel de juíza. Com base nas minhas próprias leis, imponho penalidades e condenações, sob a ameaça de uma pena restritiva de liberdade e uma suspensão condicional de finais de semana com amigos.

Não posso me queixar, é verdade, tenho garantidos meus momentos de silêncio e tranquilidade, algo como cinco a dez minutos por dia, quando encontro a minha liberdade provisória. O fato é que não passo um dia sem sofrer alguma ação de cobrança ou de alimentos, além de outros processos reinvindicatórios, pois sobrou para mim, que faz nada na vida, resolver todos os problemas das pessoas que estão sob a minha guarda e tutela. O pior é que são demandas que nunca terminam, assim como o aluguel: você mal paga um e já deve o próximo. E se você não resolve na hora, tem que arcar com juros de mora e outros acréscimos nada legais.

O curioso é que quando eu não era a reles desocupada que hoje sou e ficava ausente de casa o dia todo, as coisas se resolviam naturalmente, num ambiente salubre. Cada um cuidava do seu, sem tantos conflitos de interesses. Ao passo que hoje, à minha revelia, me foi outorgada uma procuração sem prazo de validade para resolver demandas e necessidades alheias, que se autorreproduzem com uma rapidez impressionante. Tentei a nulidade dessa procuração que me foi imposta compulsoriamente, mas os outorgantes defendem que se trata de um ato irrevogável e irretratável. Preferi não recorrer dessa decisão, pois sei o quanto a justiça aqui é morosa.

Confesso que às vezes me dá uma enorme vontade de voltar à velha rotina, aquela tranquilidade toda de batalhas judiciais, prazos, audiências, apelações, sustentações orais. Mas é só falar dessa ideia em casa que sou acusada de abandono do lar e de tentativa de arruinar a união estável da família. Cogitei até em emancipar as crianças, mas não acredito que dê certo, pois se seguirem os passos do pai, data vênia, nunca vão passar dos dezoito anos de idade em termos de independência doméstica. Longe de mim caluniar, injuriar ou difamar os homens de casa, acontece que se a gente não impor desde cedo as NR (normas regulamentares), fica prescrito qualquer direito de reclamação posterior. Mea culpa.

Por isso, escrevo daqui, dentro de meu cárcere privado, para pedir mui encarecidamente a ajuda de um bom advogado que me liberte desse ano sabático e prove, por fim, a minha inocência.

Ass: Do lar


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