ENQUANTO ISSO...

31.janeiro.2022

Foto: Grégory Escande



... tem alguém tomando chá, comendo sushi, acarajé, big mac, cobra, pizza com massa grossa, pizza com massa fina, jaca, medialunas.

Enquanto isso tem alguém com fome, que come qualquer coisa que encontra no lixo de quem come.

Tem gente vendo o sol e gente vendo a lua. Um acorda, outro veste pijama, outro coloca gravata, outro tira a bota, outro calça havaianas, outro passa batom.

Enquanto isso tem gente que tanto faz dia ou noite. A mesma roupa, o mesmo cenário, a mesma função de, outra vez, não ter nenhuma função.

Tem gente acordando, sonhando, tendo pesadelo, fazendo xixi na cama, transando, assistindo a uma série, meditando. Debaixo do cobertor, na praia, no ar-condicionado.

Enquanto isso tem gente dormindo profundo no chão duro e gente com insônia no colchão mole.

Tem pessoas carimbando, colocando clips, digitando, assinando, tecendo, falando mal do patrão, corrompendo, criando, julgando, furando papel, furando parede, furando fila. Tem uns esperando o trem, esperando aumento.

Enquanto isso tem gente esperando dignidade, se defendendo com as esmolas que recebem dos que têm para onde voltar.

Tem alguém agora fazendo acupuntura, se casando, pulando corda, brigando no trânsito, vendendo algodão doce, saltando de paraquedas, recolhendo cocô de cachorro, entrando num avião, tirando RG, brigando. Beijando: filho, amigo, pai, amante, troféu.

Enquanto isso tem pessoas no respirador, fazendo um esforço sobre humano para simplesmente conseguir ar. O mesmo ar que é de graça para você e para mim.

Tem alguém matando, alguém curando, alguém nascendo. Tem alguém se balançando na rede, tem peixe preso na rede, tem gente preso nas redes.

Enquanto isso tem alguém indiferente, matando a própria vida desistida.

Você pode agora estar na Capadócia, na maternidade, tocando um instrumento, provando um chapéu, tirando um cisco do olho, comendo aspargos. Enquanto você lê, eu posso estar bocejando, escrevendo, queimando a mão, cantando no chuveiro. A única certeza é que no meu agora e no seu agora, estamos ambos aqui. Juntos, você e eu, por alguns minutos. Todo o resto é incerto.

Enquanto isso a vida finge que é certa, previsível, garantida. Pois é o único jeito que dá para viver eternamente enquanto a vida dura.

Alguns estão levando, outros estão buscando, outros esquecidos num canto esperando ser lembrados. Tem gente cheirando a sono, hortelã, fritura, mexerica, suor, perfume, alho, chulé. Tem gente esticando o rosto, idealizando, invejando, sonhando com o diferente.

Enquanto isso tem gente esquecida, cheirando cola, coca, fugindo de si mesma, sonhando com o igual dos outros.

No metrô, um adormece, um rouba, um toca sax, um passa rodo no chão, um anuncia a estação, um perde a bolsa, o celular, o juízo, a hora. Ele sobe a escada rolante, ela desce. Por um segundo o tempo para: os olhares se cruzam, para talvez, um dia, se encontrarem de novo em outra estação da vida.

Enquanto isso tem gente se despedindo, para nunca mais.

Neste instante muitos choram. De tristeza, medo, alegria, cebola.

Neste instante muitos riem. De alegria, piada, nervoso, vergonha.

Tem crianças dormindo no carro, vomitando, brincando. Tem uma criança no carro fazendo careta para um motoqueiro pela janela. Tem um motoqueiro que devolve a careta de uma criança. Tem uma criança e um motoqueiro sorrindo, cúmplices por alguns segundos, que vale por milhões de segundos.

Enquanto isso tem alguém de mau humor, escolhendo ser chato, fazendo careta para o espelho e recebendo a careta de volta.

Tem alguém estudando astronomia, 1+1, geografia, biologia, culinária, direito, cinema, medicina, filosofia. E tem muitos aprendendo. Estudar pode ter fim, aprender não.

Não sei se é verdade que quando uma borboleta bate asas de um lado do mundo e, do outro, um tufão acontece.

Mas acredito que as vidas, não por acaso, se cruzam, se entrelaçam, nessa infinidade de possibilidades e interações que nunca cessam. Cada um no seu mundo criado só para si, dentro de um mundo criado para todos os mundos.


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