FÉRIAS (IM)PERFEITAS

04.agosto.2022


Chegou a hora de nos despedirmos das férias e enfrentar a segunda parte do ano, abastecidos com a bagagem interna que trazemos conosco. Por mais que a sensação passe logo, nunca voltamos iguais, alguma coisinha sempre fica para nos transformar. E o que mais mantemos dentro de nós, não são os pontos turísticos, as visitas guiadas, a Mona Lisa sorrindo: o melhor acontece nos imprevistos, nos sustos, nas surpresas, nas gafes. As lembranças mais preciosas acontecem justamente nas coisas não dão certo, porque só férias imperfeitas, que fogem da programação original, conseguem ser perfeitas.

Aquele dia que chove, quando você está caminhando para o centro histórico da cidade, e você fica na dúvida se continua ou se volta. Tenta se proteger, mas não encontra abrigo, fica tão encharcado até não se importar mais com o sapato perdido, o programa perdido, a hora perdida. Com tantas coisas perdidas, você ganha um dia livre nas férias. Abre a boca para o céu engole a água poluída da chuva, se deixa molhar pelas poças d'água e depois que tudo se seca, volta sujo para o hotel, mas com a alma lavada.

E quando o carro pifa no meio da estrada, você é obrigado a pernoitar numa cidade desconhecida. E acaba descobrindo que, entre as duas pontas da viagem, existe um recheio charmoso que você nunca conheceria caso tivesse o azar de as coisas darem certo.

Tem o dia que a água quente acaba na casa da praia. Você leva shampoo, sabonete, toalhas e toda a família até a casa do vizinho para tomar um banho quente. Nem vocês nem eles se esquecem desse dia, provavelmente por razões diferentes. E a água quente de todos os outros dias fica absorvida pela lembrança de um único banho nas férias.

O voo é cancelado, a companhia aérea te leva para um hotel, paga a diária, o transporte e as refeições. Você reclama, não se conforma, promete processar a companhia e fica preocupado com os compromissos marcados para o dia seguinte. Mas não tem jeito. Só você e sua mochila, livre de malas, é obrigado a ficar. E as coisas que não podiam esperar seu atraso, acabam se resolvendo, porque não tem jeito mesmo. E sem ter o que fazer, você aluga uma bicicleta para conhecer a cidade, se larga num parque, experimenta uma nova comida, observa os moradores locais. E pensa: “Como eu não tinha feito isso antes?”.

E tem aquele show, que você compra os ingressos com antecedência e, depois de muita expectativa, chega o grande dia. Mas o show decepciona, começa atrasado, a voz desafina, o aperto de muita gente junta incomoda. Na volta para o hotel, na estação de metrô, vocês ouvem um som vindo de um sax e são atraídos pela música. Sem nenhuma antecedência nem expectativa, ouvem a canção: justo aquela, que marca o amor de vocês. Vocês se deixam levar pelas notas. A música mais tocante, tocada num sem querer, toca fundo vocês.

Aproveitar as férias é conseguir se deixar levar, e saber que são elas, as férias, que têm que te mover, não o contrário. É saber degustar o sabor das surpresas entre o planejar e o realizar. É querer que as coisas deem certo, mesmo quando não dão.

E lembrar que o centro histórico pode esperar, a história não; que os monumentos podem esperar, os movimentos não; que os compromissos não têm a urgência que a vida tem; e que, do nada, sem ingressos, nem expectativas, pode acontecer o melhor dos shows.

Quero férias com sotaques errados, caminhos errados, cardápios errados. Só assim, vou conseguir aprender o sotaque, conhecer novas paisagens e saborear novos temperos. Quero férias com poucas fotos. Quero deixar as fotos para as partes perfeitas das férias imperfeitas. Porque o melhor nunca está nas fotos, não cabe, não sobra tempo... e não precisa.

Fazendo o balanço de mais um semestre fechado, quero sair com o crédito das imperfeições que me levam às melhores experiências, para conseguir tirar férias de mim mesma nesse retorno para casa.


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