GAFES & FLAGRANTES

14.agosto.2020



Gafes são um clássico na minha vida. Quem convive comigo sabe que sempre virá um novo episódio.

A quarentena tem me proporcionado um conjunto de situações constrangedoras, ainda que protegidas por uma tela ou por uma máscara.

Como isso vem acontecendo com mais recorrência no meu confinamento, quis saber se o meu estado tinha piorado ou se o momento criou situações propícias a gafes generalizadas. Inquiri amigos e senti um grande alívio ao ouvir histórias vexatórias que aconteceram com eles. Ri de cada uma delas, livre da minha própria vergonha. Mas, como todo sentimento de vingança não é duradouro, logo voltei a sofrer pelos meus últimos deslizes.

Aconteceu semana passada. A tradicional gafe da câmera ligada. Era aula séria, com pessoas sérias, assunto sério. Certa de que minha câmera estava desligada, iniciei meus exercícios faciais. Fazer isso enquanto assisto aulas não dispersa a minha atenção, pelo contrário, me deixa mais atenta (homens: entendam ou não, mulheres funcionam melhor fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo). São movimentos que não exigem muita concentração, vinte segundos segurando a boca bem aberta, duckface, cara de brava, cara de feliz, olhos arregalados, olhos cerrados, finalizando com o alisamento da face com o meu gua sha.

Quase no final da sessão, uma colega me manda um direct “você está bem?” Imediatamente eu entendi a razão da pergunta. Fiz uma retrospectiva dos exercícios, suei frio de vergonha. Treze rostos enquadrados na tela testemunharam minhas caretas esquizofrênicas e conheceram de perto minhas amígdalas. Faltei nas duas aulas subsequentes e quando me recuperei moralmente (o que só aconteceu depois de eu ter contando algumas mentiras a mim mesma até me convencer que não foi tão horrível assim), retornei aos estudos. Mantive a câmera ligada deliberadamente, prestei atenção apenas no orador sem pestanejar. Tanto foco numa coisa só me rendeu um zoom fatigue e fez com que eu me dispersasse da aula.

Não dou para fazer nada escondido, sou presa fácil para flagrantes. Tenho, sim, alguns pecados não testemunhados, assunto exclusivo entre mim e a minha consciência. Mas a maioria deles vira domínio público.

Tenho reações das mais improváveis quando sou surpreendida. A clássica é subverter a realidade do tipo “não sou eu”; “você não está vendo o que está vendo”; “não estou aqui”; “como assim?”, entre outras tentativas insanas de negar o inegável. Um misto do surrealismo de Salvador Dali com a ideia do inconsciente Freudiano. O resultado é catastrófico.

Qualquer escusa nessas situações confere ao ato do qual se tenta desesperadamente se desvincular uma dimensão gigantesca, transformando os menores e inofensivos deslizes em pecados capitais.

Com a maturidade, entendi a importância das nossas escolhas. Elegi os riscos que me disponho a correr. A resolução foi sábia, mas o resultado inócuo. Minhas escolhas, sofisticadas, continuaram a ser pegas por flagrantes igualmente sofisticados.

Tive que aceitar essa minha natureza e me acostumei, enfim, a conviver com o meu enrubescimento de tempos em tempos.

Afinal, a vida é feita de riscos.

clique aqui para ler outros posts

inscreva-se no site


4 comentários