LIBERDADE SUSTENTADA

08.outubro.2022


Break Free - de Disha Dua


Queimei meu sutiã: me livrei do silicone. Não sei exatamente o que me moveu, há dez anos, a preencher com um gel o espaço flácido deixado pelo leite sugado dos meus seios. Algo - que tem muito pouco a ver com padrão de beleza, e mais com o meu apego à maternidade - me fez recorrer a esse artifício para reestabelecer a forma natural do meu corpo. Foi uma miragem num deserto seco. O maior dos paradoxos: o branco puro do leite pelo transparente sintético do gel.

Convivi pacificamente durante anos com a coisa embutida, lidando bem com esse pop-up frontal, até que meu corpo começou a estranhar o corpo estranho. Ele me deu sinais de que era hora de restituir o espaço vazio que eu tinha roubado de mim. Obedeci, pois ouvidos servem, mais do que tudo, para escutar o que diz o nosso corpo.

Não faço aqui um protesto feminista, muito menos um manifesto contra o silicone. Falo sobre a nossa maior liberdade, que traz junto uma obrigação: a de mudar, se metamorfosear, se transformar, de sermos vários. A permissão para sermos contraditórios e ter o desprendimento para dizer “não mais” ao que achávamos que éramos, ou ao que de fato um dia fomos. O direito de nos definir, com convicção, hoje, sem medo de mudar de ideia amanhã. A tranquilidade para reconhecer os caminhos incertos que escolhemos ou fomos condicionados a escolher. A coragem para explantar pensamentos que não servem mais, para se livrar dos espartilhos e silicones que nos asfixiam, e garantir um espaço no peito para que possam entrar novas versões de nós.

Parece óbvio: ter liberdade é conseguir ser o que somos. Mas é complicado, porque demora, porque dá trabalho e porque é muito mais fácil ser o que não somos. E isso me leva a pensar que liberdade é, essencialmente, a capacidade de não desejar mais do que o mundo nos oferece.

Exercitar a liberdade, entretanto, não significa fazer escolhas arbitrárias e desordenadas, mas sim encontrar uma causa que as sustentem - independentemente dos sutiãs. Do contrário, seria se render ao preenchimento sintético, oco.

Não foi arrependimento, foi mudança. Escolhi abdicar de uma parte de mim. E devolvi o vazio que eu devia para o meu corpo.

Liberdade é isso, nos deixar morrer um pouco, para que possamos nascer todos os dias.


Publicado na Folha de São Paulo de 05.outubro.2022


Agradecimento: Escrever esse texto foi fácil, necessário. Fluiu naturalmente assim que me sentei na primeira cadeira depois da cirurgia. Mas não foi fácil decidir torná-lo público. Me perguntei o porquê dessa dúvida, desse medo, até descobrir que era mais um botão do espartilho que eu tinha que me liberar. Ousar publicar essa experiência, tão íntima e pessoal, faz parte dessa minha conquista de liberdade. Obrigada por fazer parte disso.



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