MÁSCARAS TIE DYE

12.maio.2020

Hoje fui dar minha corridinha que me permito fazer em dias alternados nessa quarentena.

Está certo que quando saio de casa sou vista como uma impostora e quando volto, sou a própria peste. Discordo, não toco em nada, fico longe das pessoas, vou munida de álcool gel e muita prudência. Se eu fosse para o mercado comprar uma comidinha gostosa para o jantar, será que receberia o mesmo julgamento?

Mas o assunto é outro.

Nos 500m finais do meu percurso, me dei ao luxo de tirar a máscara do rosto para reciclar o oxigênio, sentir o vento na cara e aliviar minha respiração sufocada pelo tecido.

No segundo seguinte me deparei com um casal do tipo politicamente correto, com tatuagens cuidadosamente distribuídas no corpo de ambos, vestidos com roupas moderninhas como manda a cartilha, e levando na coleira um ofegante cachorro como álibi para o passeio. As máscaras, óbvio, customizadas com cores fortes, em tie dye, não menos corretas.

Assim que me viram, me condenaram não só com olhares, mas com gritos de protestos, tentando chamar atenção de outros fugitivos para que se associassem a eles à revolta. Em vão, pois mesmo para os que estavam com máscaras, via-se um olhar de solidariedade a mim, junto com uma mensagem de saturação aos patrulhamentos.

Ignorei, o que foi fácil com a fartura de endorfina. Aproveitei o barato da corrida para imaginar como seria a vida do casal, a casa, tudo correto, até mesmo a parte desarrumada. Yoga, Matcha e Namastê (o que é maravilhoso), mas também uma casa cheia de críticas ao que seja diferente ou a quem pense diferente deles. Não é muito Namastê jogar pedras contra alguém que eles acabaram de ver na rua, num sentenciamento implacável.

Fantasiei o quanto eles ficariam orgulhosos de si, igual fica um aluno aplicado: saíram para passear com o cão, com suas roupas, máscaras e tatoos; protestaram e fizeram questão de tornar público esse protesto; voltaram para sua casa satisfeitos com a benesse que fizeram à sociedade; jantaram hambúrgueres de grão de bico e espinafre feitos por eles e colocaram seus pijaminhas. Missão do dia cumprida. Nota 9,8.

Terminando a parte final do meu percurso, vesti a máscara e comecei a desacelerar voltando à minha casa.

Endorfina diminuindo. Me deparo com uma jovem loira com cara de sonsa, passeando na calçada, falando animadamente no celular, e, pasme, sem máscara.

Acionei meu olhar de desprezo. Fiquei realmente brava com essa falta de consciência coletiva. Cheguei perto, e continuei com o olhar dos que não suportam algo diferente.

Olhei para os lados na esperança de encontrar os meus amigos moderninhos. Já estavam longe, provavelmente cumprindo outra missão.


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