MEDO, MEDINHO, MEDÃO

28.fevereiro.2021




Pensa num medo.

Barata? Medo! Medo da barata; dos fungos, bactérias e parasitas que essa medonha barata carrega; e das medonhas doenças que podem causar esses medonhos fungos, bactérias e parasitas que a medonha barata carrega. Medo, enfim, do produto e do subproduto do medo inicial.

Assim agem os nossos medos, paridores que são de outros medos. Quem dera pudéssemos esmagá-los com uma chinelada, tal qual fazemos com uma barata. Se bem que barata morta também provoca medo.

Alguns medos nos protegem, outros nos paralisam. Tenho medo dos medos que nos paralisam. Pois são esses que nos vencem.

Passei a infância com medo de Mertiolate e de barulho de motorzinho de dentista. Medo do som mesmo, que dói mais do que o próprio motor. É o medo do porvir, que quase sempre é maior do que o que de fato virá.

Já tive medo de não engravidar, hoje o medo é de engravidar. Já tive medo de parecer ridícula, medo de parecer (ser) normal. Medo de fazer uma festa e ninguém aparecer. Medo de não ser correspondida, medo de não corresponder.

Tenho medo do vestido ficar apertado. Medo de perder o apetite e a vontade de beber. Medo de cortar o cabelo e não gostar.

Medo de perder... um jogo, uma aposta, um objeto, o backup. Sobretudo medo de me perder de mim.

Medo de cair, de ralar os joelhos, de quebrar um osso. Medo de machucar alguém. Medo de me ferir. Medo do produto e do subproduto desse medo, pois nos machucam quem mais nos importa. Medo de me decepcionar.

Medo de gente que não sabe amar. Ama-se uma ideia, um cachorro, um ofício, uma arte, uma comida, mas é imperioso amar gente. E não basta amar, tem que saber amar. Quem não sabe como amar, só faz mal a quem acha que ama, por não saber que na verdade não ama, justamente por não saber como amar. (Medo de não ser compreendida nessa complexa construção sobre o medo de não saber amar.)

Medo da preguiça, da falta de leveza. Medo da escuridão total. Medo, igual, da clareza do refletor mirando minha cara. De enxergar imperfeições que eu escondo até de mim mesma. Medo do espelho fiel e do amigo infiel.

Medo de culpas. Medo de quem vive pedindo desculpas. E de quem não tem capacidade de pedir desculpas. Medo de quem tem medo de errar. Dos fracos demais. Medo dos que se acham grandes demais.

Medo de quem não aceita ideias contrárias. Medo de ser assim também. De não ultrapassar meus preconceitos e crenças, de não conseguir mudar de opinião, de ter que provar alguma coisa para alguém.

Medo de não ousar, de parar de criar e de me transformar.

Medo de mentiras. Minto: medo de verdades!

Medo de não perceber. Medo de perceber demais e de não conseguir perdoar. Medo de não saber a hora de parar, medo de ir além ou ficar aquém. Medo de ser tarde demais.

Medo de não fazer diferença. Medo da indiferença, que é o vácuo, a apatia, o nada, a desistência. Medo de perder a fé.

Tenho medo de medos que eu tenho até medo de falar.

Aos destemidos que dizem não ter medo de nada, falta-lhes a coragem de sentir o medo. Mal sabem eles que é do medo que nasce a coragem.

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