O NÚCLEO FAMÍLIA NO CONFINAMENTO

30.março.2020


Primeiro a notícia de um vírus longínquo e remoto. ‘Coitados dos habitantes da China’, pensei, e logo segui com a leitura dos outros assuntos do jornal.

Depois de algumas semanas, notícias de vítimas do vírus chinês no norte da Itália, preocupou alguns amigos sobre o que fazer com os filhos que estudam na Europa. O vírus ainda estava longe. Era uma preocupação mais de logística do que saúde.

Poucos dias depois, já não tinham mais dúvidas: os filhos voltariam para o Brasil. Aqui ficariam seguros, com a família, e longe do vírus.

Dias se passavam e o vírus, que antes era uma pequena manchete nos jornais, foi aumentando progressivamente até tomar conta de todas as partes dos jornais, Editoriais, Economia, Cultura, Cidades, Editoriais, Charges. Não demorou a ser incorporado um novo caderno especial aos jornais, o Caderno Saúde, com uma assustadora matemática das vítimas.

Estamos, hoje, confinados nas nossas casas fechadas com o nosso núcleo familiar.

É a primeira vez que as famílias acordam e dormem juntos sem nenhuma pausa, se trombando nos corredores, cozinha e quarto, ouvindo as vozes e sons uns dos outros, interagindo presencialmente e ininterruptamente.

Nossa agenda de compromissos está, se não branco, um tanto confusa. Faz alguma diferença se é quarta ou domingo ? O relógio está na gaveta; manhã, tarde e noite se confundem. Estamos largados nos nossos moletons à espera de notícias externas. Empresários, donas de casa, donos de bancos, esportistas, músicos, home officers. Todos iguais.

Há uma vontade, até instintiva, de vencer a restrição de sair de casa. E é justamente essa restrição que nos impede de ficarmos dentro da nossa casa de verdade. Olhar para dentro sem os ruídos de fora. Que oportunidade terrível e maravilhosa ao mesmo tempo!

Confinamento compulsório não é férias, é um descanso obrigatório mesmo que não merecido.

Um confinamento compulsório sem data para terminar, não nos permite organizar nossas mentes e emoções.

Meu otimismo me ajudou a considerar esse isolamento uma oportunidade de ler, ouvir música, dividir tarefas em casa, etc. Algumas delas até estão acontecendo. E está sendo muito bom.

Mas o meu otimismo não previu as horas que eu passaria na TV ouvindo notícias do vírus, o instagram, o incômodo de não me movimentar fisicamente e ver minha família tão acomodada na imobilidade. Meu otimismo não imaginou que eu ficaria tanto tempo sem poder ver e beijar meus pais e amigos queridos.

Por outro lado, o meu pessimismo diria que teríamos um ambiente de batalha na nossa casa. Ele, felizmente, errou. Nunca imaginaria que as coisas se adaptassem com essa suavidade. Posso até dizer que estamos todos nos conhecendo melhor.

E esse conhecimento do outro, nos revela muito de nós mesmos. Pois cada membro da família é um reflexo de comportamentos e valores de seu núcleo. Isso nos coloca cara a cara com nossa própria identidade.

É como um espelho que nos rodeia por todos os lados, sem a possibilidade de outros cenários. Traz a crueza e a beleza da verdade do que realmente somos, verdade essa que conseguimos escapar na nossa rotina de ir e vir.

Uma oportunidade que só aconteceria por essa força maior, uma determinação absoluta que, se descumprida, ameaça a nossa vida.

Olhar para dentro parece estranho no meio desse convívio intenso e repetitivo dos dias de confinamento. Mas, se conseguirmos essa façanha, será a parte boa e milagrosa de tudo isso que estamos passando. Vivemos numa fuga incessante, agora não temos nem para onde e nem porque fugir, pelo menos por um tempo. Depois tudo volta ao normal, e espero que o ‘normal’ tenha outro significado depois de tudo isso.

Sinto falta da rotina, do trabalho diário, da liberdade, da piscina, da natureza, de amigos, de tantas outras coisas.

Quero saber do que sentiremos falta desse confinamento depois que tudo isso passar.

É instintivo buscarmos o previsível e o permanente, repetindo padrões. Mas a vida é um fluxo contínuo, impermanente e imprevisível, e hoje estamos sentindo isso na nossa própria pele.

Além das descobertas particulares, uma lição que todos nós aprenderemos juntos, é saber lidar com o inesperado. Até poucos dias acordávamos com uma rotina pré-definida e cheia de compromissos.

Hoje compreendemos que podemos dispensar a maioria dessas obrigações, sem nada perder, deixando o tão necessário espaço vazio. O vazio nos permite incorporar novas possibilidades, mesmo que ainda estejamos apegados a uma única forma de viver.

É uma oportunidade de encontrar prazer na simples observação.

O prazer de fazer uma coisa só por vez, com foco, sem dívidas.

De saber dar espaço aos outros e saber como pedir um espaço para o outro. Estar mais presente de verdade, admirar detalhes da nossa casa, da família e de nós mesmos que eram passados desapercebidos. Treinar a serenidade, mas também nos permitir enlouquecer às vezes, pois assim a gente pensa, cria e age sem tanta censura. E o melhor que pode nos acontecer é não nos levarmos tão a sério, pois não controlamos absolutamente nada. Graças a D'us!


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