NEM MÉDICO, NEM ANESTESISTA, NEM LOUCO

13.julho.2022

Nota: Geralmente uso esse espaço para publicar crônicas sobre coisas mais belas. Mas não consigo me calar diante da notícia estarrecedora do anestesista que abusou sexualmente, violentou, uma mulher em pleno trabalho de parto.


Esse cara não é médico. Médico é quem cuida, cura, dá vida. Esse cara não é gente. Gente é quem pensa, sente e respeita. Esse cara não é homem. Homem é quem assume. Esse cara não é louco. Louco é quem tem alguma alteração patológica nas suas faculdades mentais. Não tem atenuante. Não tem perdão.

Esse cara é um médico ao contrário. Médico trata de erradicar a doença dos outros. Ele espalha a sua própria doença.

Esse cara é um anestesista ao contrário. Em vez de tirar a dor, causou a maior das dores que uma mulher pode sentir. Uma dor para a qual não existe anestesia que aplaque. Uma dor sem data de validade. Uma dor que revolta, que envergonha, que dá nojo.

Esse cara é um louco ao contrário. Louco é quem não sabe o que está fazendo. Ele sabia bem o que estava fazendo, tomou cuidado para não ser flagrado, dopou a mulher com uma dose maior de sedativo, usou a anestesia como seu próprio veneno e dele tirou proveito. Violou, violentou, abusou, estuprou, desprezou o milagre da vida, desrespeitou a medicina, o líquido anestésico, a maca, o lençol, as paredes, o crachá, o CRM. Foi cruel, maleficiente, antiético, imoral. Desprezou todos os corpos femininos junto com o corpo da mulher desacordada.

Esse cara é um ladrão. Roubou o prazer do encontro da mãe e o recém-nascido, em nome de seu prazer. Tantos atos criminosos num só crime.

Inverteu a abertura do seu avental para facilitar a manobra macabra e subverteu a ordem das coisas, invadindo um espaço sagrado. Sua roupa era esterilizada, mas estava suja, imunda, contaminada. O estetoscópio pendia no pescoço de um corpo sem coração, sem pulso.

Foram dez minutos, uma eternidade quando se trata de uma atrocidade. A mulher foi cindida: de um lado do lençol, a alegria de uma vida chegando; do outro lado, a beleza do momento se esvaindo pela boca. De um lado, a esperança, a delicadeza, do outro uma brutalidade irremediável. Menos de um metro de distância separavam esses dois mundos. O paradoxo do começo e do fim, da pureza e da indecência.

Que tipo de prazer é esse? Que tipo de pessoa é essa? Isso já não importa.

Nas redes sociais, onde expunha imagens não autorizadas de bebês e partes do corpo de mulheres, ele escreveu “Vocês ainda vão falar de mim. Esperem.” Infelizmente, nesse quesito, ele não podia estar mais certo.


Publicado na Folha de São Paulo de 12.julho.2022



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