NUA NA RUA

08.novembro.2020


Aconteceu alguns dias atrás. Decidi ir a pé a um compromisso perto de casa para recarregar minha vitamina D. Mesmo sendo um dia comum, eu sentia uma inexplicável felicidade. Uma atmosfera diferente, ar fresco batendo no rosto, sensação de liberdade. Os rostos dos outros contrastavam com o meu, pareciam taciturnos, solitários, fechados. Alguns me olhavam com uma expressão estranha, como que tentando comunicar alguma irresignação, mas nada abalava a minha alegria naquela manhã ensolarada.

Depois de percorrer radiante algumas quadras, me dei conta: eu estava nua! Não era sonho, era realidade nua e crua. Saí sem máscara de casa. Mais do que isso: tinha me esquecido completamente da necessidade de usar máscara para sair de casa. Talvez Freud interpretasse como a realização de um desejo reprimido, como nos sonhos.

A primeira sensação foi de vergonha, tal qual Adão e Eva ao descobrirem sua nudez no Eden. Tentei puxar a camisa para o rosto para servir de máscara, mas sem pano suficiente, a barriga aparecia. E, àquelas alturas, uma nudez já era suficiente para mim.

Tive o ímpeto de explicar a todos que eu era uma pessoa responsável, respeitava a quarentena, e que nas poucas vezes que saia de casa não deixava de usar máscara. Mas ninguém estava interessado na minha explicação, era uma condenação sumária de uma ré confessa do atentado violento ao pudor.

Por outro lado, outros desmascarados me olhavam com simpatia e cumplicidade. Para estes, também, não consegui informar que eu era da outra brigada. Sem querer, eu já fazia parte do exército inimigo.

Naquela hora, mesmo sem nenhuma lógica, o medo do vírus ficou menor do que o incômodo de estar com o nariz à mostra.

Fiquei na dúvida se voltava para casa ou se prosseguia para o destino. Eu já tinha percorrido a metade do caminho e me convenci que era melhor acelerar o passo e acabar logo com aquele pesadelo. Depois percebi o erro de cálculo. Faltava uma metade de ida e duas metades de volta, ou seja, multiplicaria aquele tormento por três. Assim acontece quando a gente toma uma decisão errada no início, é sempre mais difícil remediá-la depois.

Decidi me defender: “Vou ocupar minha boca para justificar a nudez facial”. Entrei no primeiro estabelecimento arejado que encontrei, deixei meu umbigo à mostra por alguns segundos para proteger minha boca e nariz com a camisa. Cogitei um maço de cigarros, mas eu não sei fumar e a primeira e única vez que coloquei um cigarro na boca quase convulsionei de tosse. E pensando bem, não podia correr o risco de ter um acesso de tosse, sem máscara, no meio da rua. Dei não para o chiclete, não para as balas e ... bingo, yes, um picolé! Comprei um de limão, me higienizei com álcool e comecei a lamber o meu álibi. Mas, com a avidez que sempre me aparece diante de um picolé de frutas, exagerei nas mordidas e em menos de uma quadra não sobrou nada além do palito.

Ouço alguém me chamar de dentro de um carro. Tentei fingir que eu não era eu, mas a curiosidade de saber quem tinha testemunhado o meu delito foi maior. Cumprimentei a vizinha negacionista, com quem eu discutira dias atrás exigindo que seu marido usasse máscara nas dependências do prédio. Sem máscara e sem sorvete para morder e descontar a minha raiva, fui trucidada pelo seu olhar e nocauteada pela buzinada dupla de um tchauzinho vitorioso.

Desisti de tudo, dei meia volta e comecei minha jornada de volta. Parei novamente para comprar outro picolé, de morango, fazendo a promessa de não dar nenhuma mordida até chegar à segurança do meu lar. Mas dessa vez foi o calor que devorou o meu sorvete e fez derreter uma gosma vermelha que ziguezagueou todo o meu braço, como veias que sobressaiam da pele transparente que a nudez alcançara.

O caminho de volta trouxe novos obstáculos. Era perto da hora de almoço. Passei pelo fumódromo no exterior do shopping, com um bando de enfileirados, cada um de um lado da calçada, fazendo digestão com os seus cigarros. Respirei fundo, entrei numa apneia como se estivesse mergulhando num mar de tubarões. Consegui passar pelo corredor sem respirar, mas o ar terminou e, na primeira respirada, tive o tão temido acesso de tosse pela ingestão profunda da fumaça.

A boa notícia é que eu já estava perto de casa. Resisti bravamente e cheguei exausta ao prédio, não sem antes assegurar-me que a vizinha vitoriosa não estava por perto.

Na porta de casa, coloquei a mão na minha bolsa para pegar a chave. Tirei o chaveiro, e junto dele foi saindo um elástico, depois um pano branco, depois outro elástico... sim, era uma máscara, intacta, que me acompanhava silenciosamente dentro da bolsa durante aquela luta inglória!


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