O NARCISISMO FUNCIONAL DE CADA UM

15.julho.2020

Jean Cocteau - foto de Philippe Halsman


Ouvimos muito ultimamente, pessoas que se dizem ocupadíssimas com reuniões, calls, conferences calls, video calls, ou cozinhando MUITO, cuidando MUITO dos filhos ou MUITO ocupado com alguma coisa MUITO importante.

Desconfio a maioria das vezes que ouço essas exclamações. Não entendo aqueles que se dizem solicitados demais a ponto de não ter tempo para nada, além do tempo gasto se sacrificando por alguém, pelo trabalho ou por uma causa.

O tom é de exaustão, mas vejo por trás do lamento um alívio e uma enorme satisfação pessoal. A cabeça inventa um desamparo alheio e, o que parece altruísmo, revela-se uma estratégia movida por uma necessidade íntima de ser útil.

A pessoa recebe uma ligação. Não atende porque não está com vontade de falar, ou porque está tirando uma soneca no meio da manhã, ou porque está realmente ocupada numa tarefa, que na maioria das vezes, pode ser retomada. Depois de um tempo razoável - o suficiente para dar mais importância à causa ou até que a vontade de conversar apareça - retorna a ligação com um “desculpe, tive várias reuniões hoje” ou “ufa eu não paro um minuto, tá uma loucura aqui”.

Às vezes, a voz de quem acabou de acordar confessa o sono profundo que precedeu a ligação, ao que a pessoa se justifica, “estou com uma super sinusite”. Depois de dez minutos as cordas vocais voltam a se organizar, a voz de sono vai sumindo e, junto com ela, milagrosamente desaparece a sinusite.

Não basta estar ocupadíssimo. Tornar isso público é o atestado de competência, como o diploma na parede; é a prova cabal de excelência e funcionalidade.

Figura clássica é a mãe exemplar que sofre e se descabela (literalmente) para cuidar de tudo e de todos. Aquela que realmente acredita que os filhos e o marido dependem dela para respirar e que a casa, sem ela, desmoronará no caos da entropia.

Essa mulher, que todas nós temos uma porção, alimenta-se narcisicamente do lugar de super-mãe-esposa. Enquanto isso, tudo que o marido precisa é de uma esposa não-descabelada, literal e metaforicamente. E o que mais os filhos precisam é de uma mãe segura e tranquila, ainda que não esteja presente em todos os minutos da vida deles, preferencialmente.

Ter respeito próprio é a mais nobre educação que podemos transmitir aos nossos filhos.

Outra fonte narcísica-funcional, são nossas importantíssimas reuniões.

Pressupõe-se que pessoas que participam de reuniões têm algo de relevante para colaborar, denota um caráter de importância social. A estética dos reuniunandos exige uma formalidade, quase tão incômoda quanto o cabelo desarrumado da super mãe.

Estar em reunião é uma escusa inquestionável. Ninguém ousa interromper, ainda que da solene porta da sala de reunião ouvem-se risadas falsas de piadas bobas.

Minhas experiências com reuniões presenciais (claro que também me nutro dessa importância!) em tempos pré-pandemia, criaram a minha própria estimativa: sessenta por cento dos assuntos podem ser resolvidos por telefone ou e-mails; reuniões de uma hora podem ser abreviadas para quinze ou, no máximo, vinte minutos; reuniões com duração de duas horas ou mais são improdutivas e deixam pendentes, além da pauta inicial, mais assuntos a serem resolvidos. Mesmo porque já se provou que o tempo de concentração das pessoas, na era digital, é menor que o de um peixe.

Ocupamos grande parte da nossa vida nos permitindo entrar nesse jogo.

Nome: O ‘Jogo dos Ocupados’.

A meta: não precisar dedicar o seu tempo e esforço para pensar e olhar para dentro.

A pergunta: ocupados com o que?

O enigma: ocupados para que?

Pensar no essencial dá trabalho. Exige limpeza na casa que a nossa alma habita e muitas horas de reuniões internas, em que participam as nossas facetas intelectuais, mentais e emocionais. Difícil não haver uma briguinha particular com tantas personalidades diferentes.

Nenhuma demanda externa é mais importante do que a nossa organização interior. E quando estamos bem organizados internamente, não teremos mais que usar a desculpa de estarmos ocupadíssimos, quando quisermos fazer uma siesta, sem culpa e sem dívida, estejamos nós descabelados ou engravatados.


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