OS CHEIROS

01.junho.2021




Todas as sextas-feiras, em casa, tinha cheiro de sexta-feira. Era dia de comida especial, dava para sentir do primeiro andar do prédio. Meu irmão e eu tentávamos adivinhar, pelo nariz, a sobremesa-surpresa que viria. É o cheiro mais remoto e reconfortante que guardo comigo.

Tem cheiros ruins que são bons. A naftalina das roupas de inverno do meu avô, por exemplo, era puro perfume. Cheiro de dinheiro também é ruim, mas é ótimo. Cheiro impregnado no cabelo depois de uma balada é horrível, mas é uma delícia.

Açúcar não tem cheiro e é doce, já café tem cheiro bom e é amargo. Dama da noite exala um perfume, mas só de noite. Cada comida tem o seu cheiro. Mas se frita tem um cheiro, se cozida, tem outro. Cheiros, então, são relativos. Será que o meu cheiro de grama é igual ao seu cheiro de grama? Coisa que sempre me questionei e nunca vou descobrir. São provas de que o olfato é um sentido que não faz sentido.

Sim, porque cheiros são pura emoção, não é à toa que no nosso cérebro o sistema olfativo é vizinho de porta do sistema límbico, o laboratório das nossas emoções.

Cada pessoa tem um cheiro. Não falo de cigarro ou suor, refiro-me a um odor essencial, que os poros tiram das profundezas e exalam pela pele. Algo como a personalidade olfativa de cada um.

Mas apesar de emotivas, nossas narinas não são empáticas. Nos adaptamos aos nossos próprios cheiros ruins, há quem sinta prazer com os próprios fedores, mas quando o cheiro é dos outros, socorro, somos implacáveis.

Tem cheiros que não existem mais. Cheiro de mimeógrafos, que na verdade é cheiro do estêncil, que na verdade é cheiro de álcool. Quem fez prova mimeografada na escola nunca vai esquecer esse cheiro de medo. As provas de hoje, inodoras, não carregam essa carga dramática que uma prova trimestral merece.

Outro cheiro em extinção é o de lojas de vinil. Como eu amava aquele cheiro de música! Depois veio o CD, que não tem cheiro nenhum. O que dizer então dos aplicativos de músicas? Hoje, quase tudo que a gente usa, vê e ouve tem cheiro de celular. Cheiro de nada.

Em contrapartida, surgiram cheiros novos que na minha infância não existiam. Praça de alimentação. Tanto faz onde, cheiro de praça de alimentação é sempre o mesmo. Uma mistura de carne, com papelão da caixa do sanduiche, com peixe cru, com o metal dos talheres, com casquinha de sorvete. É tanto cheiro junto que tira a vontade de comer. Melhor é o cheiro de livraria, que abre o apetite e faz as letras penetrarem pelas narinas.

Quem nunca caiu na armadilha do marketing olfativo? Tem fragrâncias tão sedutoras em algumas lojas de roupas, que fazem a gente querer ficar mais, provar mais, comprar mais.

Cheiros, também, dão crias. Eles provocam atração e dão o empurrão final para o acasalamento dos animais, incluindo os racionais.

Cheiro de fogueira: primeiro beijo. Cheiro de praia: transforma. Cheiro de jornal: necessário. Cheiro de cloro: mergulho. Cheiro de bebê: paraíso. Cheiro de asfalto: tosse. Cheiro de gasolina: inexplicavelmente bom. Cheiro de avião: na ida é mais gostoso. Cheiro de cabeleireiro: tenho preguiça. Cheiro de cerveja: faculdade. Cheiro de pastel: feira. Cheiro de carro novo: cuidado. Cheiro de pipoca: filme.

Cheiros não podem ser fotografados nem documentados, embora sejam palpáveis sem a gente precisar tocar, pois transpassam o tato e a visão. Através deles a gente ouve, sente, vê. E fala: porque cheiro não é só o que entra, é também o que sai. Medo, raiva, desejo, estresse, tudo isso tem cheiro.

Então cheiros provocam emoções. E emoções provocam cheiros.

O cheiro das minhas sextas-feiras foi mudando. Com o tempo, passou a ter cheiro de festa, viagem, faculdade, amigos, liberdade. Só que esses cheiros continuaram se transformando e mudaram tanto, que resgataram o cheiro original das minhas sextas-feiras, aquele que a gente consegue sentir do primeiro andar.

Os cheiros ficam, somos nós que mudamos.


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