OS GÊMEOS

21.junho.2020

"Twins" - Agne Mikalauskiene




Eles são altos, esguios, cabelos fartos, encaracolados e grisalhos. Suas roupas estão entre o estilo roqueiro e o básico da calça jeans e camiseta Hering preta.

Quem anda pelo bairro conhece.

Andam sempre juntos no mesmo ritmo acelerado.

Nunca vi um sem o outro, tampouco vi um intruso na dupla.

Às vezes estão de boné, os dois, às vezes com os cabelos soltos no vento, os dois. Quando apenas um está de óculos escuros, o outro compensa com uma sacola na mão. Não sei para onde vão, se para uma missão importante ou para comer pão de queijo na padaria. Parecem sempre apressados. Não obstante, a expressão de ambos é calma, segura e de completude, dando a certeza de que se bastam e estão plenos na companhia do outro.

Seus gestos, olhares, movimentos têm a harmonia de um nado sincronizado. São calmos ao conversar, não interrompem a fala do outro, ouvem com interesse, intercalando frases no lugar e hora certa como se tivessem, antes, ensaiado. Depois de alguma fala, que suponho importante, se entreolham no timing de um espelho; pensam por alguns segundos, e voltam a olhar para frente mirando o mesmo cenário, seguindo a marcha firme.

Eles me atraem, ponto.

Tenho um TOC por simetria e observar essa imagem emblemática de equilíbrio é um prato cheio para mim.

A dupla surge de repente. Quando tenho tempo, dou meia volta para segui-los por uma quadra, para, na volta do meu caminho, explorar as novas descobertas.

Eles, obviamente, não percebem a minha presença una.

Me controlo para censurar minha imaginação que, às vezes, tende a tecer suposições que fogem ao que concretamente vejo. Isso só corromperia o meu estudo: a imagem deles conta toda a história.

Não importa se são arquitetos, se moram juntos, se têm gatos, se gostam de chocolate, se usam pijamas iguais ou se são geminianos.

Apenas me inspiro na forma ideal de relacionamento que os meus olhos veem.

Numa tarde com um tempo indefinido entre o chuvoso e o ensolarado, encontro-os na farmácia. Um segurava um guarda-chuva, o outro vestia óculos escuros. Meu coração bateu mais forte e meus óculos imediatamente ficaram embaçaram pelo ar quente que subia da minha máscara. Tive uma amnésia quanto ao motivo da minha ida à farmácia e minhas atenções se voltaram exclusivamente a eles. Afinal nunca estivemos, eles e eu, no mesmo ambiente fechado. Estavam em cantos diferentes e isso confundiu a minha mente, acostumada que estava a vê-los sempre juntos e iguais. Minha antena acompanhava os dois, em stéreo.

Logo eles se reencontraram na fila do caixa, cada um com a sua cestinha. Peguei os dois primeiros produtos que vi na minha frente, e quando me dei conta ser um creme contra assaduras e um pote de papinha (não tenho bebê nem assaduras), já era tarde, não podia perder o meu posto na fila. Passei a analisar as provas materiais. As cestas só continham o necessário (outra razão para minha admiração): numa cesta Aspirina, na outra Tylenol; numa cesta shampoo para cabelos secos, na outra para cabelos normais; numa cesta solução para lentes de contato, na outra nada para contrabalançar.

Cada um pagou pelos seus produtos, com seus próprios cartões, em caixas diferentes, numa independência que me era incomum.

Em um instante, desconstruí toda a narrativa que eu desenvolvera sobre eles ao longo de uma longa pesquisa de campo.

Saí da farmácia, abri o pote de papinha, e usei o dedo como colher para compensar minha queda de açúcar causada pelo impacto da reviravolta do caso.

Recapitulei: um esperava a chuva, outro o sol; um usa paracetamol, o outro ácido salicílico, talvez para a mesma enxaqueca; um tem o cabelo seco, o outro normal; um usa lentes de contato, o outro não se sabe.

A lupa das diferenças foi desencadeando uma infinidade de desigualdades nos gêmeos.

Foi o momento crucial ao entendimento definitivo. Eram gêmeos-idênticos e diferentes; ou gêmeos idênticos-diferentes.

Dizem que casais que vivem em harmonia acabam se assemelhando fisicamente com o tempo de convívio. Com os nossos gêmeos, o início começava pelo fim: a semelhança física ressaltando suas diferenças.

A beleza que eu tanto tentava compreender estava justamente ali, nessa possibilidade de duas pessoas diferentes caberem no outro, apesar, e por causa, de suas diferenças.

O produto final é coisa fina.


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