PANDEMIA BIPOLAR

23.agosto.2020


Federico Manfredi - Felix and I


Dia desses, caminhando na rua, devidamente mascarada e alcoolgelizada, encontrei um conhecido que não via desde antes do século pandêmico.

Ele, sem máscara - e sem a aflição que os tementes do vírus sentem quando saem da toca - me chamou de longe.

Minha primeira ideia foi fingir não o ter reconhecido, contando com a facilidade que a máscara nos permite fazer isso. Enfim, uma outra boa função para as máscaras. Mas depois me dei conta que quem estava com a máscara era eu e não ele.

Tive que sucumbir ao chamado e aceitar a aproximação do desmascarado.

A cada passo que ele dava em minha direção, eu recuava dois. A dança continuou por alguns segundos, e finalmente ele entendeu meu pedido de distanciamento.

Sem cerimônias, logo de entrada, joguei um: “Sem máscara?” O tom de uma brincadeira me encorajou essa introdução direta. Ele se aproveitou do tom anedótico da minha pergunta-protesto e me respondeu com desleixo: “A coisa não é assim” e acrescentou “não vamos enlouquecer, cada um tem a sua hora ... e tenho fé que a minha vai demorar muito”, seguido de uma sonora risada. Macabra e burra.

Minha mente foi desenhando no ar os perdigotos que saíam daquela risada pestilenta, o que me fez, desesperadamente, recuar mais dez passos.

O valentão me contou que estava indo a restaurantes, academia, reuniões sociais, tudo normal. Obviamente, com a assertiva de que as pessoas que ele frequenta estavam se cuidando, tão bem quanto ele. Se queixou, apenas, dos horários restritos dos Shoppings.

Contei que raramente vou a lugares fechados porque ainda não me sentia confortável. Sei que pode soar exagerado, mas é assim que me sinto. Ele me garante que esse receio é bobagem: lá é muito seguro, me garante, estão medindo a temperatura de todos que entram, imunidade garantida, garante ele.

Quis perguntar de onde vinham todas aquelas ‘garantias’, mas preferi não levantar a bola para me poupar de um novo ataque de gotículas.

Terminei o papo, quase do outro lado da rua, me perguntando: A trouxa sou eu ou o trouxa é ele? Porque nessa equação, as duas hipóteses são excludentes, ou uma coisa ou outra.

Na volta para casa recebo uma ligação da minha tia hipocondríaca. Em isolamento absoluto, não põe o nariz, literalmente, nem na janela de seu oitavo andar. Está trancada em casa desde o início da quarentena. Já expliquei que ela não precisa trancar a porta para se proteger do vírus, mas ela não confia, e passa a chave duas vezes na fechadura.

Tentei disfarçar o barulho da rua, mas não adiantou. “Você está na rua”, me acusou. Tive que confessar e ouvir: “Irresponsável! E não fale no celular na rua, já te falei isso mil vezes, uma hora você vai cair, machucar os dois joelhos e abrir mais portas de entradas para o vírus. Tchau, me ligue de casa, em segurança”, desligando o telefone sem tempo de eu retribuir ao tchau.

Certamente veio à minha tia a mesma pergunta: A trouxa é ela ou a trouxa sou eu?

Quem ousa defender que faz a coisa certa nessa bipolaridade de comportamentos?


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