SAUDADE

12.junho.2020



Sinto saudades de ir ao cinema; não sinto saudades de me sentar atrás de uma cabeça alta; vou sentir saudades de comer pipoca na cama.

Sinto saudades de dormir regularmente; não sinto saudades de dormir pouco; vou sentir saudades de acordar sem despertador.

Sinto saudades da natação; não sinto saudades da culpa quando a preguiça vence e sabota o treino; vou sentir saudades do meu cabelo mais saudável, livre do cloro semanal.

Sinto saudades da Hidroxicloroquina ser assunto exclusivamente médico; não sinto saudades das viroses de inverno que hoje o isolamento nos protege; vou sentir saudades de ... não vou sentir saudades de nada que tenha a ver com doença.

Sinto saudades de movimento na rua; não sinto saudades de trânsito; vou sentir saudades de um ar menos poluído.

Sinto saudades do cotovelo sendo apenas uma articulação entre o braço e o antebraço; não sinto saudades de apertos de mãos moles; vou sentir saudades das formas não convencionais de se relacionar.

Sinto saudades de ir para parques; não sinto saudades de parque cheio; vou sentir saudades da liberdade de não ter que escolher nenhum programa de domingo.

Sinto saudades de levar meus filhos à escola; não sinto saudades de acordar às 6h da manhã; vou sentir saudades das conversas nos intervalos de suas aulas on line.

Sinto saudades de ver meus amigos; não sinto saudades de não conseguir marcar um encontro por falta de tempo; vou sentir saudades de falar bobagens com amigas pelo FaceTime, no meio da noite, esparramada na cama.

Sinto saudades da rotina; não sinto saudades da rotina; vou sentir saudades da rotina de não ter rotina.

Sinto saudades de dirigir um carro; não sinto saudades de multas e barbeiragens; vou sentir saudades de não ter que procurar as chaves do carro perdidas pela casa (que sempre encontro, obviamente, na minha bolsa).

Sinto saudades de consumir; não sinto saudades de não caber num vestido lindo; vou sentir saudades de uma conta enxuta no cartão de crédito.

Sinto saudades de viajar; não sinto saudades de arrumar malas; vou sentir saudades de ficar na minha varanda, plena, acreditando estar na Mata Atlântica.

Sinto saudades da época sem Lives. Sem mais.

Sinto saudades de andar sem máscara; não sinto saudades de mascarados; vou sentir saudades da segurança que a assepsia exagerada nos dá.

Sinto saudades de apalpar frutas no supermercado; não sinto saudades de fila no caixa; vou sentir saudades dos deliveries na minha porta.

Sinto saudades de comida pronta na mesa; não sinto saudades de um cardápio previsível; vou sentir saudades de frequentar a cozinha.

Sinto saudades de ouvir uma playlist até o fim; não sinto saudades de música alta do carro do lado; vou sentir saudades de compartilhar minhas músicas com a família.

Sinto saudades de uma vida fora de casa; não sinto saudades da obrigação de cumprir tantas tarefas diárias e encontrar todos exaustos à noite; não vou sentir saudades das trombadas de ânimos dos confinados no lar.

Sinto saudades de ver as pessoas sem que elas representem um perigo contaminante; não sinto saudades de beijinhos e abraços protocolares; vou sentir saudades de conversas mais livres.

Sinto saudades de praia. Sem mais.

Sinto saudades de reuniões presenciais; não sinto saudades de reuniões de condomínio; vou sentir saudades do Zoom com minhas primas, todas falando ao mesmo tempo.

Sinto saudades de andar de sapato de salto alto; não sinto saudades de bolhas nos pés; vou sentir saudades das minhas havaianas.

Sinto saudades de amigos em casa; não sinto saudades do interfone tocando (pontualmente às 22h01m), com o vizinho reclamando do barulho (só pelo prazer de reclamar); vou sentir saudades de não me importar com os vasos quebrados atingidos por uma bolada no playground que virou a minha sala.

Sinto saudades do Luda e seu clarinete na frente do Shopping; não sinto saudades do barbudo ‘você gosta de poesia?’; vou sentir saudades de ouvir, de casa, músicos incríveis tocando na rua vazia.

Sinto saudades da liberdade de ir e vir sem medo; não sinto saudades de tanto ir e vir; por fim, vou sentir saudades da vida que não se resume ao circuito fechado e ininterrupto de levar-trabalhar-buscar-assistir-voltar-buzinar-malhar-reclamar-mandar-pagar-cobrar... que não deixam espaço para simplesmente SER.


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