SEM RÓTULOS

12.novembro.2020



Na minha turma tinha o Cotonete, a Turca, o Quatro Olhos, a Gorda, o CDF, o Bocão. Outros recebiam adjetivos, como Márcia Saidinha, Beatriz Chorona, Gabriel Perdigoto, Roberto Fedorento, Daniele Rica.

Lembro do Inteligente e da Bonitona da escola. Não que ele não fosse bonito, mas esses foram os rótulos que elegeram para eles e ambos acataram as vestes. Não demorou para o Inteligente se desleixar na aparência e a Bonitona no boletim. Chegou a puberdade e ela trouxe algumas novidades. Espinhas brotaram no rosto da Bonitona e, com alguns quilinhos a mais, ela não sustentava mais o tamanho da beleza nela depositada. Por outro lado, os interesses do menino, naturais de um adolescente, o levaram a se preocupar mais com a aparência. Isso os livrou momentaneamente dos rótulos; foi um tempo de liberdade. A Bonitona mergulhou nos livros e suas notas alcançaram picos, o Inteligente começou a usar mais o espelho e sua performance escolar caiu de ótima para boa. Mas assim que os hormônios se acalmaram e as espinhas sumiram, tudo voltou ao normal e a liberdade não se sustentou. Cada um seguiu o seu caminho, nos trilhos predeterminados.

Estereótipos, rótulos, tipificações, julgamentos, estigmas, tanto faz o nome que damos a isso. Rotulamos os outros porque temos preguiça de pensar, porque somos incapazes de lidar com a complexidade humana e com as nossas próprias incertezas.

É o que a escritora nigeriana Chimamanda Adichie chama de ‘história única’. Segundo ela, insistir em uma única história é “superficializar as experiências e negligenciar as muitas outras histórias que formam cada pessoa”.

Somos todos preconceituosos, está lá no nosso HD. Cultivamos, em privado, ideias primárias (e alguns pensamentos impublicáveis), consideramos imperfeito tudo aquilo que é diferente de nós. E apesar da nossa “moral ilibada”, acreditamos que as nossas imperfeições vêm de circunstâncias, enquanto as dos outros, vêm de escolhas erradas ou de alguma falha de caráter. É tentador nos engradecermos à custa de diminuir o outro.

A estupidez começa quando nos recusamos, emocional ou racionalmente, a buscar o conhecimento do “diferente”. Sem esse olhar, nossos preconceitos ficam sacramentados, obstinadamente cegos e insensíveis.

O desafio é não aceitar passivamente a nossa ignorância e nos descolarmos da ideia de que NÓS somos o centro de referência da normalidade.

Escrevo sobre esse assunto para tentar digerir uma história que aconteceu com uma amiga-irmã cadeirante que, semana passada, procurava um hotel na praia para passar alguns dias com o marido e filhos. Informando sua condição e indagando sobre a acessibilidade do hotel, recebeu a resposta: “aqui não é lugar para você”, com total naturalidade. Só não rotulo o alojamento com o adjetivo que eu gostaria para não contradizer as ideias acima defendidas, além do que, minha amiga teve a fineza de não divulgar o nome do hotel. Mas o fato é que esse microcosmo reflete o pensamento de um mundo maior, resistente ao conhecimento, que se apoia na intolerância.

Da minha turma de infância, alguns se descolaram dos rótulos, enquanto outros se resignaram na sua história única.

Gorda está magra de dar raiva, já correu três maratonas; Quatro Olhos se livrou das lentes fundo de garrafa depois de sua cirurgia de miopia e ninguém, nem ele mesmo, se lembra que um dia usou óculos; CDF, com medo de errar e desapontar os pais, pouco arriscou na vida, cursou uma faculdade tradicional e toca a empresa da família junto com seus irmãos; Márcia Saidinha é mãe de oito, todos do mesmo pai, e nunca deu uma escapada pois só tem olhos para o marido; a Bonitona, querendo eternizar sua formosura, abusou das cirurgias plásticas e entrou numa depressão profunda quando completou quarenta e cinco anos; seu marido Cotonete, hoje careca, continua sentindo a mesma paixão que nutria por ela na infância e mal percebe as distorções no rosto da musa.

Quanto a mim, ouço versões coerentes e contraditórias: doidona e certinha, sensível e cruel, compulsiva e equilibrada, dura e resiliente, preguiçosa e obstinada. Nada disso me define. Posso ser tudo isso ou nada disso. Não somos uma história única.


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