SEMPRE ME ACONTECE

23.outubro.2021


Escolher o carrinho de supermercado com uma roda que não gira; ser atendida pelo funcionário mais mal-humorado do estabelecimento; chegar no balcão da companhia aérea quinze segundos depois do fechamento do check-in; ter um pedacinho de alface preso no dente da frente durante uma reunião; ser flagrada com o dedo no nariz pelo motorista do carro do lado; escolher a fila mais lenta; mudar para a fila mais rápida e ela ficar mais lenta; se sentar no (único) assento que tem um chiclete recém mastigado; colocar a mão justamente onde o chiclete está grudado.

Se fosse só isso, estava bom.

Quando eu compro, dia seguinte desvaloriza; quando eu vendo, o preço dobra; quando todos saem bem na foto, eu saio com a boca torta; quando eu resolvo acordar mais tarde, alguém se lembra de mim cedinho; quando minha tomada é de três pinos, a do lugar é de dois; quando eu chego cedo, começa atrasado; quando eu chego tarde, perco a melhor parte; quando eu entro no banho, recebo a ligação que esperava. Quando pode acontecer, sempre me acontece.

Se eu carrego demais, a bateria fica viciada; se não completo a carga, a bateria acaba; se não tem radar, tem polícia para me multar; se eu mudo para a Amazon, sai uma série boa na Netflix; se eu estou com pressa, o elevador está no 17º; se tem um buraco no chão, o meu pé entra; se o meu pé entra, ele sai roxo. Se pode acontecer, sempre me acontece.

E não é só.

A pessoa mais chata da festa é em mim que ela gruda; a vizinha de cima usa chinelo de salto; o bebê de baixo tem cólicas noturnas; o riso incontrolável vem quando não é para rir; a incapacidade de rir vem quando é para ser engraçado; a vontade do xixi aparece depois do último posto de gasolina na estrada.

Nunca ganhei rifa; sempre quebro a aba da tampinha do refrigerante; nunca lembro do nome; sempre lembro tarde demais; nunca achei dinheiro na rua; sempre corto a pele com a parte afiada do papel sulfite. Nunca é com os outros, é comigo que sempre acontece.

E tem muito mais, porque além dessa lista ser meramente exemplificativa, ela tem os seus desdobramentos e a cada dia nasce uma situação nova para confirmar a minha certeza: sempre me acontece! Tentam me confortar dizendo que tais episódios são meras fatalidades, que podem acontecer com qualquer um. Outros evocam a Lei de Murphy, mas nada disso explica. A questão, contudo, é muito mais complexa, até porque já se provou que os princípios da Lei de Murphy obedecem a uma lógica matemática (o pão enquanto cai, não tem tempo de dar uma volta completa, por isso cai com a manteiga para baixo). Mas esse não é o meu caso, em que o improvável acontece só porque se trata de mim.

Para tentar compreender o problema, resolvi levar o assunto ao divã. No início da consulta descrevi pormenorizadamente toda a maquinação contra mim. O psicólogo não me entendeu e simplificou a situação: era só eu ser mais atenta, sair mais cedo de casa quando for ao aeroporto, passar fio dental nos dentes depois do almoço, não colocar o dedo debaixo da poltrona, além de outros conselhos superficiais.

Quando o terapeuta finalmente se lembrou que era pago para problematizar e não simplificar as minhas questões – mesmo porque se eu fosse uma pessoa descomplicada não estaria lá toda semana – resolveu me ouvir mais atentamente. Me fez perguntas aparentemente irrelevantes, como o tipo de roupas que meus pais me vestiam na infância, o sabor de balas eu gostava, quais são minhas cores favoritas, se prefiro cheiro de praia ou de campo, doce ou salgado. Com todas essas informações, associadas à sentimentos, emoções e frustrações enrustidas, a conversa foi ficando interessante. Ele fez uma cara de quem teve uma grande sacada, o que me deu a esperança de que tudo seria finalmente desvendado. Tomou um fôlego, soltou um “veja bem”, mas antes de começar a falar, olhou para o relógio. Sim, a sessão havia terminado. Sempre me acontece!


Inscreva-se no Blog

clique aqui para ler outros posts

1 comentário