SOCORRO

16. março.2022


Estou no cativeiro, não sei como escapar. Meu sequestrador me mantém acorrentada num lugar fechado, sufocado, em que ele é a porta, a janela e o meu próprio ar.

O algoz? Meu celular.

Não que ele me trate mal. Muito pelo contrário, ele me alimenta, me informa, me seduz, me promete. Quanto mais ele me dá, mais eu dependo dele. Essa é a sua tática, esse é o seu ardil.

Ele me quer só dele, e me quer cada vez mais. Não me deixa em paz, não larga do meu pé - e a minha mão não larga dele. Ele colou em mim de tal forma que acabou se transformando na extensão das minhas mãos, meus outros dez dedos. Virou também meus segundos óculos, que se interpõem entre mim e o mundo. Sem eles eu fico mais míope do que quando estou sem meus óculos de grau.

Analisando retrospectivamente fica fácil enxergar: o plano já estava traçado. No início, o desalmado usou métodos requintados para me capturar. Ele se apresentou através de uma aparência delicada e elegante, condensado em um retângulo envidraçado. Eu me valia dele apenas quando era necessário e útil. Era ele quem me servia, e fingia que se bastava com as minhas demandas pontuais. Mas aos poucos foi me sugando, lenta e progressivamente, me pedindo mais, um pouco num dia, um pouco mais no outro dia. “Me dê só alguns minutos”, ele me pedia quando me encaminhava ao Instagram, “tem coisa interessante aqui”. E esses minutos, que se transformaram em horas diante da tela, roubavam a minha leitura, as minhas conversas e a minha autoestima. Estrategicamente, aplicou o golpe dos aplicativos, me convencendo que os quadradinhos me dariam liberdade e conhecimento, quando na verdade eram as próprias grades que me deteriam.

E então eu, que me considerava uma resistente, me entreguei. Mordi a isca. E, sem perceber, fui eu que passei a servi-lo. Só que, diferente de mim, suas demandas não são escassas, na verdade são infindáveis. Se fosse só o corpo, seria mais fácil, mas ele domina também a minha mente, controla minhas emoções, é ele, agora, que invade minha vida, ofusca a minha identidade, confunde a vida privada com a pública.

Ele me faz acreditar que preguiça é uma virtude, que basta um dedo para me conectar ao mundo. Me convence que é prescindível a presença física, que é melhor digitar do que falar, que dois monólogos gravados são o suficiente para uma boa conversa entre amigos.

Mas ele também me bajula. Lê livros para mim, me ajuda a fugir do trânsito, edita minhas fotos até elas ficarem melhores do que eu. Me faz comprar coisas que eu não preciso, me faz meditar com sons e imagens de natureza, como se natureza fosse só som e imagem; como se a vida fosse chapada, igual a ele.

Hoje sou refém deste objeto cheio de charme com seus alertas, vibrações, cores e sons. Sou refém deste objeto aparentemente inofensivo, bidimensional, que tem por trás muitas outras dimensões.

Mesmo sabendo dos danos, continuo a consumir desenfreadamente essa droga legalizada. Endorfina, serotonina, dopamina, tanto faz o nome que dão a ela.

Devo dizer que tenho um apego pelo meu raptor. Sim, criei um vínculo e intimidade que nunca tive antes com ninguém. E não passo nenhum minuto sem ele ao meu alcance. Durmo e acordo com ele ao meu lado, quando preciso de conforto é para ele que eu apelo, quando preciso de companhia ele está sempre lá para mim, até no banheiro ele me faz companhia nas minhas prisões de ventre.

Se eu quero ser salva? Honestamente não sei. Talvez seja tarde demais, pois acabei me apaixonado loucamente pelo meu raptor.

E não sei se estou preparada para me livrar dessa Síndrome de Estocolmo.


Receba as novas publicações

Clique aqui para ler outros posts


2 comentários