SUPERPROTETORA EU?


24.novembro.2020


A primeira vez que meu filho voltou da escola com uma marca de mordida no braço fiquei furiosa. Como alguém teve a coragem de morder um braço tão gordinho e inocente? Decretei uma guerra contra a criança, contra a escola e contra a mãe do canibalzinho. Com a escola e o coleguinha estou em paz, mas ainda olho torto para a mãe. Isso faz quinze anos.

Mães são capazes de sentir amor ou ódio instantâneo dependendo do que fazem com seus filhotes. Odiei o oftalmologista do meu filho quando ele simplesmente decidiu, numa consulta de rotina, que o meu príncipe teria que usar óculos. Impossível, óculos bloqueando aqueles olhos lindos! Não aceitei. Precisei da confirmação de outros quatro profissionais, só daí, fui comprar os óculos mais descolados da cidade que fizesse jus àquele rostinho angelical.

Longe de mim ser uma mãe superprotetora. Desde cedo garanti aos meus filhos liberdade e independência para fazerem as suas próprias escolhas. Um exemplo foi a seleção da escola. Meu marido e eu tivemos uma divergência quanto ao método de ensino. Decidimos, então, que o próprio menino iria escolher, nada mais democrático. Assim que entramos na escola defendida pelo meu marido o menino desatou a chorar, nada o acalmava, fez um verdadeiro chilique. Quando chegamos à escola por mim defendida, o pequeno estava calmo e feliz, degustando um pirulito que, por mera coincidência estratégica, eu acabara de encontrar no meu bolso. Não tivemos dúvida, fizemos a matrícula na hora. De fato, o menino fez uma ótima escolha.

Esporte é outra coisa que desde cedo incentivei meus filhos a praticarem com liberdade. A eles conferi total autonomia ... desde que a escolha fosse pela natação. Eles não demonstravam, mas no fundo adoravam sair exaustos da escola às 16h e ir direito para a aula de natação e passar o resto do dia cheirando a cloro. E eu fazia questão de acompanhá-los. Sentava-me naquela sauna, ao lado de mães desnaturadas que textavam seus celulares, enquanto eu não tirava os olhos da piscina. Comemorava cada avanço dos meus peixinhos, tirava fotos e chegava a dar uns palpites para o professor do tipo “a braçada está cruzada”, sempre, é claro, respeitando o espaço deles. Até que um dia meu filho, muito sensível, me pediu que eu esperasse no carro para me poupar do calor insuportável daquela piscina coberta.

Muitas mães se atrapalham na questão de educação. Conheço uma mãe que sigo os filhos pelo localizador do celular e fiscalizo, de hora em hora, onde e com quem eles estão. Uma verdadeira invasão de privacidade. Outra, sem noção, envergonho o filho adolescente nas festas puxando-o para dançar na frente dos amigos. Trauma na certa! Tem aquela que deixo a mesa prontinha para os filhos com a comidinha predileta de cada um. A essas mães eu canso de avisar: “depois não se queixem das reclamações das noras”. Atualmente, com o ensino à distância, as armadilhas estão por toda parte. A mãe de um colega do meu filho, coitado, entro no meio da aula para servir lanchinho e ela ainda dou um beijo no rosto dele com quinze câmeras testemunhando. Cena vexatória. Cada mãe sabe o que é melhor para seu filho, por isso não me intrometo na educação alheia, me contento em dar o bom exemplo.

Não dá para falar sobre maternidade sem falar de culpa. Eu mesma vivi uma época que fui perseguida por ela. Sentia culpa no escritório, pelo abandono de crianças impúberes e, em casa, pelas pendências empilhadas na minha mesa de trabalho. Resolvi a questão: transferi o escritório para casa (isso muito antes dessa febre de home office). Às vezes encontro contratos no meio do livro de receita na cozinha e já cheguei a anexar desenhos das crianças em um processo judicial. O importante é que me libertei da culpa, o que, pensando bem, me deixa um pouco culpada.

A verdade é que se quisermos que nossos filhos cresçam, temos que diminuir de tamanho. Faço esse exercício diário para me manter no tamanho certo para eles, mas o coração se expande a cada minuto com um amor que não cabe, e sou obrigada a aumentar para poder caber em mim tanto amor.

Perdoem os micos, filhos!


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