TERAPIAS PARALELAS

29.maio.2022

- DIVÃ I: O JOVEM E A MÃE -

Filho:

- Minha mãe não tem tempo para mim. Sou a última das prioridades dela, por mais que ela me fale todos os dias que me ama. Ela vem querer conversar nas piores horas, quando estou no meu quarto ou mexendo no celular ou com a cabeça em outro lugar. Mas é ela que vive ocupada, está sempre na correria, até para me buscar da escola. Só porque tem que voltar correndo para o trabalho, grande coisa. Ela não está nem aí para mim, essa é a verdade. Com certeza nem imagina que peguei recuperação. De noite, quando eu peço massagem, ela diz que está cansada e que ainda tem que cuidar de “coisas”. Coisas, coisas, coisas ... e eu?

- Você já tentou explicar o que sente para ela?

- Tá louco, ela nunca vai entender. Aliás, ela vai estar ocupada com “coisas”, não está interessada em me ouvir.

Mãe:

- Ele é um garoto incrível. Está crescendo lindamente. Generoso, bonito, divertido. Esse ano deu uma piorada nos estudos, tirou 4 de matemática, pegou três recuperações. Já marquei reunião com a coordenadora da escola. Mas está tão difícil conseguir conversar com ele, acho que é coisa de adolescentes mesmo. Eu largo tudo no trabalho para buscá-lo da escola, todos lá já sabem que isso é sagrado para mim, ele entra no carro e responde monossilábico às minhas perguntas. E nas vezes que faz o favor de sair comigo, só sabe reclamar e no fim conclui que eu sou culpada por tudo que dá errado na vida dele. Sinto falta da nossa proximidade, de quando ele me deixava participar da vida dele.

- E você já tentou falar isso para ele?

- Impossível, ele não vai nem querer ouvir. Não dá para invadir, o jeito é esperar.


- DIVÃ II: O CHEFE E O FUNCIONÁRIO -

Chefe:

- Se não fosse ele na empresa eu estaria perdido. Além de ser um ótimo funcionário, supercompetente, ele se dá bem com todo mundo. Ele é tipo caxias mesmo, durante esses oito anos faltou uma ou duas vezes. Eu sei que ele merece ganhar mais, mas acho que está satisfeito, e ficar valorizando demais pode estragá-lo. É melhor esperar ele pedir um aumento. Graças a ele eu vou poder tirar uns dias para viajar sem me preocupar.

- Você já demonstrou esse reconhecimento que tem por ele?

- Eu trato ele bem, com respeito, pago em dia. Já não tá bom?

Funcionário:

- Amanhã entrego minha carta de demissão. Recebi uma proposta ótima, com salário maior, além de todos os benefícios. Não que eu não goste da empresa, mas não vejo mais onde crescer. Não recebo nenhum incentivo, estou com o mesmo salário faz cinco anos. Meu chefe me trata bem, mas não valoriza o tanto que trabalho. Eu luto pela empresa como se fosse minha, mas infelizmente ele não percebe.

- Seu chefe sabe que você não se sente valorizado?

- Isso não mudaria nada, não se pede esse tipo de coisa. Ou a pessoa te valoriza ou não. A fila andou.


- DIVÃ III: O PAI SEPTUAGENÁRIO E A FILHA -

Pai:

- Ela continua ingênua igual quando era criança. É tudo um drama, acha que eu não sei me virar sozinho, que tenho que me aposentar, cuidar mais da saúde. Quer saber? Eu estou mais forte e lúcido do que ela. Ela me sufoca com tanto controle. Tenho que fumar escondido, olha que coisa mais ridícula. Ela é que tem que cuidar da vida dela e se divertir mais com o mala do marido. Quando vem com uma lista de instruções, a única forma de fazê-la parar é me fazer de bobo e esquecido. Meus netos sim, esses me divertem, me entendem, e até ajudam a criar minhas estratégias de fuga desse controle tão cerrado.

- E você já conversou com ela sobre isso?

- Ela não tem maturidade para entender. Continua uma criança. Deixa ela se sentir útil achando que a gente é inútil.

Filha:

- Meu pai não se cuida. Trabalha oito horas por dia, sai três vezes por semana para se intoxicar de café com os amigos. Depois chega em casa e ainda cozinha para minha mãe. Ele diz que tem prazer nisso, mas é pura teimosia, ele não tem essa força toda. Anda tendo uns lapsos de memória e de concentração, quando eu tento passar as minhas orientações, por exemplo, ele parece que se perde, fica estranho. Pelo menos parou de fumar. Se não fosse eu ficar em cima, controlando... A verdade é que eles dependem de mim.

- Você acha, então, que seus pais, mesmo ativos, dependem de você só porque têm oitenta anos?

- Sim, quero dizer, não. Ah sei lá, só sei que eles dependem de mim.


- DIVÃ IV: O MARIDO E A ESPOSA -

Marido:

- Te contei? Estou programando uma viagem surpresa para comemorar o nosso aniversário de casamento. Portugal. Ela sempre quis conhecer. Já combinei tudo com a minha sogra, vai ficar com as crianças. Vinte anos de casado, quem diria, e eu continuo absolutamente apaixonado por ela, cada dia mais. A idade deixou ela ainda mais linda, me dá até raiva. Ela tem reclamado que estou estressado, isso nos distancia justamente porque acho que é ela que quer ficar longe de mim. Não tolera pessoas estressadas. Daí a gente acaba esfriando e eu não sei como me aproximar. Quando ela está dormindo, aí sim, fico horas olhando para ela, babo mais do que ela baba no travesseiro, e coloco pra fora todo o meu amor.

- Por que você não declara o que sente por ela (quando ela está acordada)?

- Ela já sabe, é tão óbvio! E ela é do tipo que não gosta de ninguém muito em cima. Melhor deixar ela entender pelo meu olhar.

Esposa:

- Ele não gosta mais de mim, não me nota mais. Me sinto feia e desinteressante. Ele anda tão estressado, tão ensimesmado nos problemas do dia a dia. Eu sei que as coisas não são fáceis ... trabalho, responsabilidades. Mas se eu ainda fosse importante para ele, com certeza não estaria desse jeito, tão desanimado, tão frio. Quanto tempo a gente não viaja? Quanto tempo ele não me faz uma surpresa? Quanto tempo ele não me diz que estou bonita, que gosta de mim? O fato é que ele se desligou. Sinto falta de “nós”. Ele não gosta mais de mim. Me dá esse lenço de papel aí, Dr.

- E você já falou para ele que você sente falta do “nós” de vocês?

- Para falar desse “nós”, e ele ouvir, teria que desatar muitos nós dentro dele. Ele nem quer saber, melhor deixar assim, quem sabe um dia ele se toca. Ou, sei lá, eu me toco.


- DIVÃ V: EPÍLOGO: O TERAPEUTA E A ESPOSA -

Terapeuta:

- Oi querida, o que tem para jantar hoje? Estou exausto, o dia foi longo. Cada paciente que me aparece. Será que algum dia eu vou conseguir fazer esses loucos entenderem que não existe uma única versão das nossas histórias? Quantos anos de terapia esses lunáticos vão precisar para entender que cada situação tem várias narrativas sobrepostas? Eles não enxergam, por isso que deixam tantos buracos nos relacionamentos. Depois vêm chorar no consultório. Assim esses mentecaptos nunca vão conseguir fazer com que as diversas narrativas dialoguem entre si. Mas e aqui em casa, querida? Está tudo bem?

Esposa:

- Seu filho está enfurnado no quarto de mau humor, não quer papo, diz que a gente nunca vai entender ele. O seu assistente acabou de deixar uma carta de demissão e deixou uma observação: decisão irrevogável. Seu pai anda fumando escondido, e não é só cigarro, sua irmã encontrou umas ervas na gaveta dele. E quer saber? Eu não aguento mais! Você não liga mais para mim, só pensa nos seus pacientes, nos seus problemas, nos seus pais. Virei invisível na sua vida. Você não gosta mais de mim, virei gorda, feia e desinteressante aos seus olhos. E ainda tem a cara de pau de perguntar se está tudo bem por aqui?


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