UM DIA INTERMINÁVEL SEM CELULAR

25.junho.2020



Ontem de manhã meu celular quebrou. A tela deu umas piscadas e depois de algumas horas apagou, do nada.

Tentei ignorar a pane, desliguei e liguei umas trinta vezes, insisti nos toques na tela com os dedos para cá e para lá, mas não adiantou. Era fato: o celular pediu uma trégua e não reagiu ao meu apelo.

Me questionei o porquê do desarranjo, se o aparelho, made in China, era moderno, não caiu no chão, não molhou. Não havia explicação lógica.

Levei para a assistência técnica perto de casa e o homem me disse: “Não é nada, isso aí. É só uma panezinha, espera um pouco que tudo volta a funcionar normalmente.”

Esperei, atenta, aguardando novidades, mas as notícias não eram boas: o bug, que se limitava ao hemisfério norte do aparelho, se espalhou e a tela inteira foi tomada pelo apagão. Entendi que a coisa era séria.

Sempre à minha vista e sob o meu domínio, o celular, de repente, decidiu se rebelar, me informando que o controle que eu tanto pensava exercer sobre ele era ilusório.

Fui novamente à assistência e lá deixei o aparelho para um diagnóstico. Voltei para casa com as mãos vazias e a sensação de faltar uma parte de mim. Deixei junto com o celular, meu calendário, minhas referências e o arquivo da minha vida nele depositado na confiança plena de segurança.

Fui me organizando enquanto voltei caminhando para casa.

Crises de abstinências me acometeram e fui obrigada lidar com a ansiedade que a limitação me impunha. Era difícil lidar com a nova situação.

Minha rotina ficou confusa. Me vi perguntando algumas vezes: “Quando teria o meu celular e minha vida de volta?” Aceitei a minha impotência e me conformei com a incógnita, pois não eram as minhas perguntas que o trariam de volta.

O silêncio substituiu os toques de ligações e sinais de mensagens. Não mantive as conexões usuais, não vi ninguém sorrindo no instagram, não tirei nenhuma foto para ser eternizada. A vida ficou deserta e o ar pareceu mais puro. Explorei esse deserto e fiz importantes descobertas. Minhas refeições à mesa de jantar ficaram mais longas. Tive conversas mais profundas e divertidas. Retomei a leitura do livro encostado. Minha mente reassumiu algumas memórias que havia terceirizado para o cérebro do aparelho.

O dia de privação pareceu interminável, pelo bom e pelo ruim que isso significa.

Dormi mais leve um sono pesado e acordei hoje, no day after, a hora que meu corpo pediu, sem o costumeiro toque digital matinal, que desde cedo me joga para dentro da rotina. Olhei para a tomada, como faço automaticamente todas as manhãs, e lembrei que meu celular não estava ali carregando suas energias para o extenuante trabalho diário.

Depois do café da manhã, em que li o jornal de ponta a ponta, peguei o telefone fixo para ligar para a assistência técnica. Antes de terminar de teclar os números, coloquei o fone de volta no gancho: quis sentir um pouco mais do novo ar despoluído.

Fiz algumas promessas para mim mesma e completei a ligação.

O orçamento, que tinha a aparência de um gráfico, me pareceu irreal. Perguntei o porquê do valor tão alto e pedi transparência dos números, que como consumidora tenho direito. O atendente me respondeu que era necessário trocar a placa, produto com muita procura ultimamente, cujo fornecimento beirava o colapso. Pedi para falar com o gerente, expliquei que o valor do reparo era quase o valor de um celular novo, e ele me respondeu um delicado: “E eu com isso?”.

Não contente, fui reclamar à fabricante do aparelho. Informaram-me que havia muitos outros cidadãos insatisfeitos. Mas que o contrato com a autorizada, eleita pela maioria do conselho, lhe garantiu uma soberania na região por quatro anos.

Sem outra opção, tive que aceitar esse poder soberano, e aprovei o serviço.

Daqui a pouco vou buscar meu celular. Enquanto isso, me concentro para interiorizar as minhas promessas - que não prometo cumprir - incluindo a de terminar o livro e deixar ativas as antenas que a normalidade bloqueia.

QUALQUER SEMELHANÇA NÃO É MERA COINCIDÊNCIA.


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