UM DIA SEM RIMA E SEM ROTINA

13.outubro.2021


O despertador tocou no horário de sempre. Os mesmos cinco minutos extras e depois os três adicionais. Água, Sinthroid, mais água para descer. Sem olhar para baixo, instintivamente o pé direito se encaixa no chinelo, depois entra o esquerdo. Cabelo desarrumado no espelho, a mesma cara de sono de ontem, de antes de ontem, do ano passado. No piloto automático, uma escova no dente, outra no cabelo. Limpeza profunda no rosto, primeiro o gel e depois o algodão com o tônico facial.

Só que na hora de me vestir nenhuma cor combinou comigo nesta manhã. Experimentei o verde, azul, preto, branco, amarelo. Resolvi, então, descombinar, vesti uma camisa laranja e uma saia rosa choque. Foi o primeiro sinal. Coloquei o relógio na mão esquerda (meu normal é na direita) e a aliança na mão direita.

Lente de contato do olho direito no esquerdo e vice-versa. “É isso”, me desafiei, “hoje quero enxergar diferente!”


Deu vontade de fazer diferente.

A rotina é mesmo insistente

E quase que automaticamente,

Os hábitos tomam conta da gente.


Me livrei da rima como quem se livra da rotina. Parei para pensar o que seria um dia diferente dentro do igual de sempre, não descobri a resposta. Mas nem tudo precisa ser entendido. Só sei que depois do ritual matinal, voltei para a cama com e roupa e tudo e recusei a pressa histérica das manhãs. Ouvi uma música inteira. Fechei os olhos por cinco minutos, que valeram por cinco horas. Me levantei com o pé esquerdo, sem medo.

Na hora da ginástica, não corri, não nadei, não yoguei. Menos caloria gasta, mais energia ganha. Simplesmente respirei e senti meu nariz puxar o ar, alonguei e abri espaços para caber novos ares dentro de mim.

No trabalho não foi diferente, ou melhor, foi tudo diferente. Ouvi mais do que falei, li mais do que escrevi, fiquei mais de pé do que sentada. Peguei o último papel da pilha que eu sempre adiava, e enfrentei, enfim, o documento.


Que alívio, fazer as coisas de trás para a frente.

Às vezes fica até mais coerente

Do que fazer naturalmente.

Deixa a gente mais presente.


Apesar da rima me perseguir, insisti no diferente. Na volta da escola, peguei a rua paralela, subi uma ponte e fui parar em um túnel. “Esse caminho tá estranho mãe”. “Filho, às vezes a gente acha que só existe um caminho, mas tem muitos jeitos diferentes para se chegar ao mesmo lugar.” Tentei explicar que trânsito, gente chata, problemas sempre vão existir, seja num caminho ou no outro, mas que às vezes é bom variar. Quando me perdi, ele abriu o aplicativo em busca do caminho alternativo e fez do nosso percurso para casa uma caça ao tesouro. Ele se esqueceu do joguinho e eu das notícias do rádio e, juntos, conseguimos chegar sãos e salvos ao nosso tesouro.

No meio da tarde mandei uma mensagem romântica. Ele respondeu preocupado: “Tá tudo bem amor?”. Insisti, fui além e liguei, mas ele não atendeu, “reunião, depois te ligo” finalizando com um emoji mandando um beijo de coração. Pensei: “Não existe algo mais antibeijo do que beijo de emoji”. Antes de rimar ‘amor’ e ‘dor’, me lembrei que quem estava com a aliança na mão direita era eu e não ele. Eu era a noiva, já para ele, estava tudo conquistado.

Desliguei o celular às 7 horas, que normalmente a gente chama de 19, mas como era pra ser tudo diferente, chamei de 7. Não fui às fofocas das redes sociais, não assisti a séries nem notícias. Experimentei um silêncio um tanto perturbador, igual tudo que liberta.


Ficou tudo desligado,

Nem sequer foi programado.

Mas algo de bom foi conectado.

E eu saí do meu quadrado.


A rima insistiu, mas eu resisti. Não foi beijo na bochecha, foi beijo no umbigo. “Crianças, hoje são vocês que vão me ler uma história", e acrescentei, "e vai ser do fim para o começo”. Eles riram. Depois da metade do conto, já conhecendo o final, inventamos outros inícios, que levaram a outros finais. Era o mesmo livro, mas uma história diferente que nem o autor do livro conhecia.

Antes do pijama, quis um outro banho. Esfriei a água e senti na pele uma água diferente. Não comecei pela axila esquerda, como sempre faço. Primeiro joelho, depois testa, tornozelo, nuca. Fiz uma lavagem desordenada, terminei pela axila.

Com minha mente exaurida pelo esforço de um dia inteiro desigual, adormeci rapidamente, sem tempo de dar o 'boa noite' de todas as noites. Desta vez, dormi no lado esquerdo, no outro polo da cama. Foi diferente: o que sempre fica longe, ficou perto. O colchão sentiu um peso diferente e, maleável, me acolheu.

E com tudo invertido, tive sonhos leves e espelhados, sem saber qual será a rima do amanhã.


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