UMA BOA OUVINTE

20.outubro.2020


Aconteceu ontem. Rompendo o jejum social nessa transição para a fase verde em São Paulo, participei de um evento presencial. Ocupação mínima num ambiente grande, todos de máscaras, frascos de álcool gel espalhados pelo recinto e cadeiras separadas por uma fita amarela e preta que interditava alguns assentos contínuos.

Sobrancelhas carentes se comunicavam com curiosidade pelo salão. Mal me acomodei num espaço que me senti confortável, uma sobrancelha conhecida se aproximou animadamente de mim. “Querida, que bom te ver! Vou me sentar aqui para matar a saudade”. Ela veio tão ansiosa que, tenho certeza, nem reparou na minha sobrancelha confusa.

Lapso total de memória. Nem nome, nem rosto. Alvura completa.

Sou daquelas que tem dificuldade para lembrar nomes de pessoas. Contudo, não sei se pela idade ou pelo acúmulo de pessoas que conhecemos ao longo do tempo, nos últimos anos agregou-se à falha dos nomes um esquecimento dos rostos. E mais, muitas vezes lembro do rosto, e às vezes até do nome, mas me escapa uma informação importante: de onde conheço essa pessoa? Faculdade, clube, infância, esportes, praia, bairro ... misturam-se lugares e instâncias temporais desordenados, que só me distanciam da descoberta.

A mulher misteriosa se animou a falar, afiei meus ouvidos para tentar decifrar o enigma, certa de que não demoraria muito, pois além de ser familiar - corpo, trejeitos, modo de se vestir - ela era daquelas que gostava de falar, o que significava mais dicas para mim.

Em tom de desabafo despejou verbos e adjetivos, acredito eu, sobre algum assunto pessoal. Suas frases não tinham pontos finais, apenas vírgulas para que pudesse respirar.

Mas existia um obstáculo maior para eu decifrar o enigma: o volume baixo de sua voz.

O som tinha vida curta e as ondas sonoras se evaporavam antes de chegar aos meus ouvidos.

Fiz um esforço para aguçar minhas células receptoras auditivas . Mas o que me vinha era nada mais do que um rádio em volume baixo, sintonizado entre duas estações. Sua máscara deixava escapar apenas algumas vogais e entonações mais intensas. O resto era névoa.

Às vezes eu captava um “você concorda?” ao que eu respondia “sim, claro, tem toda razão”. Às outras exclamações eu usava um repertório neutro, de acordo com o tom que eu conseguia absorver, desde um simples “entendo perfeitamente”, “isso é verdade”, ”sim, com certeza” até um “nossa, que coisa!”. A certa altura, quando percebi uma expressão de insegurança em sua sobrancelha direita erguida, arrisquei, “mas as coisas sempre têm dois lados, você já pensou nisso por outro prisma?”. Ela deu uma trégua à verborragia e eu até tive a sensação de que provoquei alguma reflexão.

Enquanto a minha memória me humilhava em público, ela me tratava pelo meu nome no diminutivo, Eu retribuía com “querida”, “amiga” e “mano”. Isso não era problema, porque a sem-identidade ao meu lado recebia isso como um tratamento carinhoso.

A esperança de recuperar a memória brilhou em mim quando a querida-amiga-mano me perguntou: “Lembra quando a gente ...?” mas a voz perdia a empolgação inicial e as suas palavras minguavam até ficarem retidas do lado interno da máscara. Eu até tentei: “quando foi isso mesmo?”, “quem estava junto?”, mas ela respondia para si mesma como se essa minha última chance fosse mero detalhe. Só me restou dizer: “sim, claro, nunca vou me esquecer disso”, sem ter ideia do que se tratava aquele dia inesquecível.

Foi a hora em que desisti de vez, pois quanto mais eu lutava mais distante ficava a meta. Curioso que é que nos dias de sorte, quando esses lapsos acometem a minha mente, bastam algumas dicas basais para iluminar o meu caminho até eu reestabelecer a história, quando, de repente, lembro-me até da data de nascimento da pessoa. Mas dessa vez não tive a mesma sorte, e tenho que dizer: mais por culpa dela do que minha.

Ela gostou do meu vestido. Me faz uma pergunta. “Oi?” pergunto, sem entender. E ela responde algo como “o vestido ... loja ... comprou?”. Finalmente confessei: “Amiga, minha memória não anda muito boa". A confissão passou batido, ela olhou a etiqueta do vestido e registrou o nome da loja.

Duas horas depois despedimo-nos e ela me olhou com um misto de gratidão e felicidade. No epílogo de seu monólogo, com uma voz mais nítida, ela me diz: “Amiga, você não imagina como foi importante a nossa conversa. Estou tão mais leve, menos confusa, vou pensar muito no que você me falou. Adorei os seus insights. Mesmo! Vamos marcar de nos ver! Anota aí meu telefone”.

Coloquei a letra X no nome do contato e anotei o número no meu celular.

Depois pensei, se eu soubesse a verdadeira identidade dela não a teria ouvido tão bem. Ouvi, simplesmente, sem julgamento nem crenças que pudessem corromper os meus ouvidos.

Como é importante ter um bom ouvinte que nos escute de verdade!


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