VEM CHEGANDO O VERÃO

09.dezembro.2020





Estou perdida no calendário e, apesar da minha pele branquela me informar que estamos no inverno desde março, desconfio que o verão esteja chegando. Algumas imagens, para mim, representam o presságio do verão, como sacolas, sorrisos bobos, músicas insuportáveis, praias lotadas, papais noéis, roupas brancas. Como o cenário está atípico e nada disso acontece, esse ano são os siriris que se incumbem de anunciar a chegada do calor. Pontuais e implacáveis, os cupins voadores não perdoam nenhuma lâmpada acesa e, em casa, já começou a caçada aos invasores.

Sou avessa a comemorações coletivas e alegrias datadas. Mais do que isso, me irrito com o tipo de alegria sufocante e obrigatória dos finais de ano, me parece mais um desespero do que realmente uma felicidade genuína.

Fujo de lojas cheias, amigos-secretos, retrospectivas, especiais de final de ano e fico deprimida toda vez que ouço a música “Hoje é um novo dia, de um novo tempo...”. Apesar da boa intenção da canção, o ano nos provou que as alegrias não são de todos, não basta querer, o futuro ainda não começou e a festa não é nossa, nem de quem quiser e muito menos de quem vier.

Esse é o meu lado ranzinza (um dos), mas o fato é que me afino com ambientes e pessoas mais contidas e silenciosas, isso desde sempre. Não participo de coros de wo-hoos, tenho implicância com shows da Broadway, viagens de cruzeiros, sandálias Crocs, coreografias em piscinas de resorts.

Não que eu não goste de me divertir, pelo contrário, não passo uma semana sem rir com amigas até doer a barriga.

E esse ano o ar está do jeito que eu sempre (achei que) gostaria que fosse: contido e silencioso. Mas alguma coisa mais profunda do que minha rabugice sem importância, se manifesta dentro de mim, e sente falta do barulho.

A histeria de final de ano, tão necessária quanto irritante, esse ano se calou.

Com exceção de alguns privilegiados, é inevitável que estejamos sem ânimo. Nem a poderosa industrialização da esperança conseguiu se levantar da ressaca de 2020.

Os poucos animados, não sei se acreditando num milagre ou imersos no processo de negação, preparam ceias para amigos de primeiro, segundo e terceiro grau, frequentam festas e planejam viagens para passar a ‘virada’ (implico com essa expressão!) tradicional.

O calendário nos enganou, 2020 não foi um ano, foi um século. Depois de março não veio o abril. Com sorte, talvez salte para fevereiro. E o começo de um novo ano reúne a esperança de que a matemática da vida volte a ser exata. Humanamente exata.

Como dizia Drummond, para ganhar um ano novo temos que merecê-lo. O novo está dentro de nós e renasce todos os dias. A questão não é o que o ano faz com a gente, e sim o que a gente faz com o ano, os dias, os minutos, e com cada respiração.

Respirar sem aspirar não oxigena a existência humana.

Minha ranzinzisse cede e pede pela volta da alegria coletiva sazonal, vulgar e irracional, porém irrenunciável, reconhecendo que por trás de toda essa alegria boba existe uma grande sabedoria.

Anseio pela volta das certezas que antes parecíamos ter, e torço pela verdadeira virada, com a certeza de que minha irritação contra tudo isso voltará a agir.

Esse ano está valendo qualquer felicidade.

Feliz verão, com muita luz e siriris!


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