VOCÊ DECIDE

07.novembro.2021


Chegaram ao quinto andar do Fórum em elevadores diferentes, dez minutos antes da audiência. As portas dos elevadores se abriram sincronizadas, seus olhares se encontraram e, com a mesma sincronia dos elevadores, se cumprimentaram cordialmente. Era estranho: depois de quinze anos de beijos, hoje era aperto de mão, como se nunca tivessem antes se tocado. Cada um se sentou em um banco de madeira na frente da sala de audiências, ao lado de seu respectivo advogado. Ele roía as unhas, ela descascava o esmalte. Ela conteve a sua vontade instintiva e não pediu para ele parar de roer as unhas, isso já não era mais problema dela, pensou. Ele reparou que ela estava bronzeada, linda, e sentiu raiva por ela estar tão deslumbrante.

A pauta de audiências estava atrasada e os advogados aproveitaram o tempo para tentar um acordo, deixando os clientes na espera.

Sem ter para onde ir e olhar, eles apelaram para a segurança do celular. Ela tentou Instagram, notícias, checou os e-mails. Ele organizou o álbum de fotos, em que ela era a protagonista de quase todas; sofreu e fugiu do registro de lembranças felizes para não desabar. Os dedos roídos o levaram para o Whatsapp. E arriscou uma mensagem para ela.

- “Oi”

A história, aqui, se bifurca em dois desfechos.


FINAL 1:

Ela visualizou a mensagem, seu coração pulou. Esperou alguns minutos com uma frieza forçada, e respondeu.

- “Oi”

(- “Vc tá linda” – apagou)

- “mensagem apagada”

- “?????”

- “O q a gte tá fazendo aqui?”

(“Não sei, pergunte p sua advogada gostosona” – apagou)

- “mensagem apagada”

- “???? rs”

- “Não sei, pergunte p sua advogada”

- “To perguntando p vc”

- “Que papo é esse agr? Já ñ tá satisfeito c td o estrago?”

- “Quero saber qdo vc deixou de me querer , e pq? Eu acho q tenho o direito de saber”

- “Vc tem o direito de falar sobre o q VC sente e ñ concluir o q EU sinto e ainda querer uma explicação”

(“Se vc soubesse o qto te amo” – apagou)

- “mensagem apagada”

- Emoji de carinha de desprezo

- “Meus sentimentos nunca mudaram”

Ela não respondeu. Eles se olharam. Ela guardou o celular na bolsa, mas alguns minutos depois ela se rendeu e escreveu.

- “Então pq?”

- “N sei. Só sei q eu n quero + te fzr sofrer. Eu n consigo te fzr feliz, n consigo transmitir o tamanho do meu amor por vc”

- “Isso ñ bate. Você tá indiferente, agressivo, desinteressado. É isso q vc chama de amor?”

- “Nunca, nenhum dia da minha vida desde q a gte se conheceu, eu fiquei indiferente a vc. Eu juro, pode ser td ... defesa, insegurança, menos desamor. Rejeitado por vc sou incapaz de ficar bem. Pode até parecer agressividade, mas tá + p frustração, desespero”

- “Isso ñ faz nenhum sentido”

E a conversa continuou.

O atraso do juiz fez com eles resolvessem os seus próprios atrasos. Teclaram e declararam sentimentos que há tempos não conseguiam verbalizar.

- “Ok, isso já é passado. Vamos cair na real”

- “Então diz q você n me ama mais”

- “Isso ñ é mais da sua conta. Aliás para de roer essas unhas, vai ficar em carne viva”

- “Vc andou tomando sol nessas 3 últimas semanas sem mim?”

- “Maquiagem”

- “Vc não eh disso”

- “Pois é, a gente muda. E maquiagem disfarça rostos abatidos.”

- “Vambora daqui”

- “Vc é louco”

- “Sim. Sou louco. Sempre vou ser louco por você. Vamo!”

Ela riu, colocou a mão na cabeça como querendo conter a loucura de seus pensamentos. E respondeu.

- “À francesa! Igual a gente faz nas festas chatas”

Os dois se encontraram nas escadas, se beijaram, riram como dois adolescentes irresponsáveis, e fugiram igual uma noiva foge da igreja sem saber para onde ir. Saíram correndo do Fórum e desembocaram na Praça da Sé, o marco zero da Cidade. E aproveitaram para traçar um novo marco zero: não passar nenhum dia sem conversar, nenhum dia sem se abraçar e jamais ser econômicos no amor, pois quanto mais se gasta no amor, mais ele rende.

Compraram, lá mesmo, no coração da cidade, um novo par de anéis. Duas alianças simples e leves. Era assim que prometeram que seria a sua nova aliança, simples e leve.

Enquanto isso, no quinto andar, a advogada bonitona e o advogado engravatado conseguiram o melhor acordo de suas carreiras, e procuravam desesperadamente seus clientes para dar-lhes a boa notícia.


FINAL 2:

Ela visualizou a notificação da mensagem. Seu coração pulou. Mas era só um ‘oi’, e para ela isso era pouco. Esperou o seu coração se acalmar e não respondeu à mensagem.

Ele tentou de novo.

- “N finge q vc não leu minha msg. As 2 setinhas estão azuis. rs”

Pronta para responder, ela foi freada pelo orgulho. E acabou optando por ignorar a mensagem e mergulhar nos ressentimentos. Ainda assim, no fundo, ela esperava uma terceira tentativa. Dessa vez ela responderia.

Ele até pensou em insistir mais uma vez, mas desistiu. E começou a endurecer junto com ela. Fez uma força para engolir o amor a seco, na estiagem de sua desesperança.

Ela se associou às suas mágoas internas e uma teia de rancores se formou dentro dela. Fingiu que não era mais amor.

Ele apagou as fotos dela. Roeu as unhas até se machucar.

Doía tudo nele.

Doía tudo nela.

Enquanto esperavam pela chamada do Juiz, foram ficando mais duros do que os bancos de madeira em que se sentavam.

Como autor e réu, eles foram apregoados. Escoltados por seus advogados, os dois entraram na sala de audiência.

A porta se fechou.


Final 1 ou final 2? Qual final você decide?

No final das contas, é sempre você que decide.


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