VOCÊ JÁ MENTIU HOJE?

01.novembro.2020

Assim como o medo nos protege, a mentira nos defende. Não dá para viver sem mentir, questão de sobrevivência. Somos seres mutantes, complexos, incoerentes. A mentira vem para nos salvar da nossa incoerência humana.

Ouvimos mentiras muito cedo, desde a idade que abrimos a boca para os aviõezinhos (de brócolis) e dormimos com os contos de fadas na cabeça. Posso até acreditar que sapos e ogros se transformem em príncipes, mas o “viveram felizes para sempre” é a primeira grande falácia que engolimos, junto com os brócolis voadores. Talvez uma vida inteira de divã nos ajude a entender o que significa ‘feliz’ e ‘sempre’, em frases separadas obviamente.

Mas a culpa não é só dos livros infantis. Ensinamos as crianças a mentir em nome da educação. E, honestamente, não imagino como fazer diferente. Na minha experiência, não consegui sustentar o conceito liberdade de expressão para minhas crianças. Foram muitos constrangimentos. Situações como: “mãe, ela soltou um pum” apontando para a vizinha no elevador; ou “você tem cara de um dos três porquinhos” dirigido ao meu novo sócio na época. Enquanto, aos olhos das crianças, tentamos subverter essas verdades que não podem ser ditas, a vizinha e o sócio, adultos que são, reagem com outra mentira: “que gracinha!”.

Esses casos, entre outros tantos impublicáveis, destruíram meu idealismo de não reprimir pensamentos infantis e me obrigaram a ensiná-los a censurar algumas verdades, o que os introduziu ao mundo encantado das mentiras. As crianças, então, aprendem a mentir na infância e, na adolescência profissionalizam essa arte.

Existem várias categorias de mentiras. E elas atuam nas mais diversas áreas de nossas vidas.

As mais tradicionais são as expressões “sempre” e “nunca”, principalmente num sentido de compromisso futuro. E, sabendo disso, vivo me prometendo: nunca mais usar essas expressões. Sempre falho.

A mentira do comércio. O vestido tem um caimento horrível, a vendedora diz: “ficou show, é só passar um batom vermelho, jogar um colarzão que o look vai arrasar.” Roupa bonita de verdade não depende de colar nem de batom na boca. Respondo verdades a ela com o meu olhar, mas verbalizo com uma outra mentira: “obrigada querida, vou pensar”. E saio para nunca mais voltar à loja. Eu disse nunca mais?

A mentira do desejo é manjada, mas mesmo assim ganha da gente. “Só um pouco”, “última vez”, “último pedaço”, “quando eu quiser eu paro”, armadilhas na certa.

“O problema não é você, sou eu”, “eu não te mereço”: mentiras fundamentais para quem leva o pé na bunda. Facilita o trabalho de quem está dando o fora e, principalmente, mantém a dignidade do rejeitado. Na hora da dor funciona como um anestésico tópico, é só não ficar cutucando a ferida. Depois, quando o tempo já tiver curado a dor (sempre cura!), a pessoa até percebe o tamanho da mentira, mas já não importa mais, mesmo porque a fila andou (sempre anda!).

Ainda na esfera amorosa, temos a mentira esotérica. “Pai Isaac. Trago seu amor de volta em sete dias. Trabalho garantido ou o seu dinheiro de volta”; “Amarração para o amor. Vidente Jurema. Total sigilo”. É a lanterna dos afogados, não faltam clientes ... nem postes.

Outra, muito útil, é a mentira da tranquilidade. Imagine se numa turbulência aérea não tivéssemos as comissárias de bordo para socorrer nossos olhares trágicos com uma expressão de tranquilidade, tanto faz se mentirosa. Ademais, um irresponsável “está tudo bem” e um profético “vai dar tudo certo” é sempre muito bem vindo nas horas que não está nada bem e provavelmente não vai dar nada certo.

Atenção à mentira do perdão: todo pedido de desculpas que vem com uma vírgula seguida do vocábulo “mas”, é um pedido de desculpas falsificado. “Desculpe por ter sido tão agressivo, mas você...”. Pronto, terminou aqui. O verdadeiro pedido de desculpas vem do reconhecimento genuíno de um erro, coisa rara de acontecer, afinal somos perfeitos. Se não for assim, será o ato de des-culpar a si mesmo para se desincumbir de eventual sentimento de culpa ou de uma consequência.

A mentira do “eu não dou conta” mascara a verdade do “eu não estou a fim de assumir isso, se vira!”. Desnecessário maiores explicações. Ah homens...

Existem mentiras que se incorporam na pessoa e passam a ser verdades. Cirurgia plástica, por exemplo. É verdade ou mentira? O nariz mais reto, os seios mais fartos, a face lisa sem rugas. Mentiras ontem, verdades hoje.

A mentira das fotos. Photoshop, lightroom, filtro, montagem, editor... não faltam tecnologias para humanizar essa espécie de mentira. Ela é tão convincente que acabamos acreditando mais na imagem que produzimos de nós mesmos do que no reflexo do espelho míope.

Estratégias de marketing criam e recriam a mentira gastronômica. Rótulos como ‘fit’, ‘light’, ‘rico em fibras’ e ‘artesanal’ atraem os nossos olhares famintos, loucos para ser ludibriados. A gourmetização da comida também veio para sofisticar os pratos do dia a dia. O bom e velho bolo é agora o ‘naked cake’; o picolé virou ‘paleta’; o frango com Sangue de Boi ganhou o status de ‘Coq au Vin’. Tudo em nome, é claro, da experiência gastronômica.

Já os jogos eletrônicos produzem mentiras em três dimensões. 1ª- O jogo diz ao cérebro: “Parabéns, passou de fase, merece uma recompensa. Faça de novo e de novo para subir de fase e ganhar mais recompensas.” 2ª- O filho: “Mãe, eu comecei agora. Já vou parar, deixa eu morrer aqui no jogo”. 3ª- Os pais: “Coitado, deixa ele se divertir um pouco enquanto a gente janta sossegado, jogar um pouco não faz mal. E a gente aproveita o silêncio na casa.”

Será a mentira um atalho do mal ou uma salvação do bem?

Depende de qual é a nossa verdade!

Comecei a mentir por precaução, e ninguém me avisou do perigo de ser tão precavida; porque depois nunca mais a mentira descolou de mim. E tanto menti que comecei a mentir até minha própria mentira. E isso - já atordoada eu sentia - isso era dizer a verdade. Até que decaí tanto que a mentira eu a dizia crua, simples, curta: eu dizia a verdade bruta.

Clarice Lispector


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