WAZEAHOLIC

21.fevereiro.2021



Tudo pronto, vamos.

Essa frase teria me salvo de incontáveis caminhos errados, multas, atrasos e perigos nas minhas jornadas (literalmente) da vida.

Quem é da época dos automóveis com câmbio manual e embreagem, certamente se lembra do Guia Quatro Rodas que levávamos no porta luvas do carro e que, teoricamente, servia para nos orientar a circular na cidade.

Pois bem, aquele tijolo com páginas crespas contendo as veias e artérias da cidade era o nosso Waze.

Quanto tempo demoraríamos para chegar? Nem ideia. Se tinha buraco na via, trânsito, amarelinhos canetando... surpresa.

Guardávamos na memória nomes de ruas, junto com os números de telefones, datas de aniversários e a tabuada.

Mas não era fácil. Quando pegávamos uma entrada errada ninguém recalculava a rota por nós, restava-nos esperar a primeira placa de retorno, mesmo que ela nos fizesse atravessar a cidade.

Pedir ajuda para outros motoristas era quase uma praxe nos nossos trajetos desorientados. E numa época em que podíamos deixar as janelas abertas sem a ameaça de voltar para casa sem o relógio e sem o braço, isso funcionava muito bem.

O fato é que, embora eu tenha rodado vias e rodovias antes da existência do Waze, passei a não sair de casa sem antes ouvir a saudação do sorridente carrinho azul.

Estar na companhia dele, ou melhor, dela (sim, para mim essa mulher dentro do Waze existe de verdade), era sinônimo de segurança.

Não que ela seja perfeita. Além de ser prolixa, muitas vezes erra nas previsões e nem sempre está atualizada. Mas nada que diminua a sua relevância. E admito que tive a minha parcela de culpa nos nossos desentendimentos. Nas rotatórias, por exemplo. Quando eu consigo entender qual é a segunda saída, já estou na quarta. Rota re-re-recalculada até eu acertar o alvo. São poeiras da comunicação.

No início era uma, duas vezes na semana. Só fazia uso quando ia a lugares distantes. Mas aos poucos, comecei a usar diariamente, até mesmo para ir à esquina de casa. Sem perceber, eu estava sendo consumida lentamente. Era fechar a porta de casa e automaticamente abrir o aplicativo.

Minha primeira crise de abstinência aconteceu quando, num dia chuvoso, perdi a conexão no meio de um percurso. Suava frio. Parei o carro e só consegui voltar a dirigir depois que o sinal voltou, redefinindo a rota para o consultório do meu psiquiatra.

Meus amigos até tentaram me alertar. Eu me defendia dizendo que estava tudo sob controle, que eu conseguiria parar de usar a hora que quisesse. Demorei para aceitar, mas enfim compreendi a minha dependência. Eu já estava adicta.

Resolvi me libertar. Comecei me permitindo apenas usar nos dias pares. Não funcionou, pois quando eu menos esperava meu dedo indicador ignorava minha resolução e agia compulsivamente. A primeira clicada era o primeiro gole.

Tentei substituir a mulher que morava no interior do Waze. Usei o Batman, o Scooby Doo, o Gru do Meu Malvado Favorito, mas isso apenas aumentou minha irritação.

O que eu precisava era a voz da Alessandra do Waze, lenta e concatenada. A voz que para mim representava a solução do imprevisível. Um conforto que só coisas ilusórias conseguem nos proporcionar.

Tive a ótima ideia de substituir pela minha própria voz. Gravei alguns comandos, como em tre-zen-tos me-tros vi-re à di-rei-ta, zo-na de ro-dí-zio, li-gue os fa-róis, mas a minha ótima ideia revelou-se uma péssima ideia: passei uma semana falando com essa viciante melodia ritmada.

Pior que isso, a minha voz não me transmitia a segurança que eu procurava. Eu não era a Alessandra. Eu não tinha as respostas que ela tinha.

Não sou precisa nem contundente. Falo rápido, sou confusa. Me atraio pelo improvável. Quero, às vezes, me perder para descobrir percursos novos, pois são nos caminhos errados que prestamos atenção na paisagem.

Quanto ao Waze? Sim uso! Sem moderação. Acreditando sempre que viver é percorrer o caminho, e não chegar ao destino.

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